A difícil arte de guerrear no Afeganistão

É realmente difícil guerrear. No entanto, a França tinha tomado todas as precauções: após os atentados em Nova York, começou a refletir bastante, o que é saudável, pois nada mais pernicioso que "perder o sangue-frio" e se precipitar em uma ação "às cegas". Quando terminou sua reflexão, a França optou, sobretudo, pela guerra marítima. E com discernimento. Na verdade, em vez de enviar ingenuamente para "a área" seu porta-aviões Charles de Gaulle, enviou navios munidos de alimentos e outras provisões. Foi uma decisão sábia, principalmente porque, aliás, o porta-aviões Charles de Gaulle, que jamais navegou, pois sua hélice não é excelente, continua sendo consertado no porto de Toulon. Todo o mundo então reconheceu a maestria dos chefes militares. Nesse período, o poder taleban se decompunha sob as bombas americanas. Começava uma nova fase da guerra. A França não queria estar ausente. Ela participa da operação internacional que visava distribuir, a partir do Uzbequistão, a ajuda humanitária na região de Mazar-i-Sharif, a grande cidade do norte em que os soldados da Aliança do Norte combatem um pouco, pois há vários exércitos, entre outros o do terrível general (afegão/uzbeque), Rachid Dostom, e o do general (tadjique) Mohammed Atta. Era preciso agir, pois o estado de saúde e higiene das populações da área é assustador. Então, Paris enviou um primeiro escalão de soldados, sessenta, para o Uzbequistão (porta de entrada no norte do Afeganistão para Mazar-i-Sharif). Infelizmente, a tropa francesa atrasou em uma escala na Turquia, pois o governo uzbeque de Tachkent "se fez de rogado". No entanto, o contingente continuou a avançar: vinte soldados vão para Karchi-Khanabad, com uma divisão americana de 2 mil homens. Os outros, ou seja, 40 soldados, serão levados a Mazar-i-Sharif em helicópteros, pelos americanos, para recolocar em ordem a pista do aeroporto com a ajuda do gênio americano. Ao mesmo tempo, outros duzentos soldados franceses estão prontos para decolar em Marseille. Mas há um inconveniente: o Uzbequistão, que controla a porta do norte do Afeganistão, está desconfiado. Não abre essa porta às associações humanitárias da mesma maneira que, aliás, não a abre para a mídia. Por que essa postura cruel do Uzbequistão, enquanto populações enormes da região Mazar-i-Sharif estão atormentadas pela fome, pela miséria e pelo frio? Os uzbeques respondem: se abrirmos as barreiras, temos medo de que milhares de refugiados afegãos venham para nosso país, sem o menor controle. Os uzbeques especificam que vão negociar apenas com afegãos. O que é muito bom. Infelizmente, os chefes afegãos, tanto nessa região como em outras, discutem aos berros. A essas justificativas oficiais do Uzbequistão, somam-se outras que jamais são explicitadas. Em princípio, os três países encarregados da área de Mazar-i-Sharif (Estados Unidos, Jordânia e França) deveriam limitar-se a "tornar o canto seguro", de maneira a poder realizar as distribuições de alimentos. Mas quando a França anunciou o envio de soldados, acrescentou que utilizaria também aviões: seis Mirages (aviões militares de bombardeio) 2000 D de ataque e dois com alimentos, que teriam sua base no norte do Afeganistão, o que quer dizer no Uzbequistão. Ora, Tachkent (Uzbequistão) não quer de maneira alguma dar a idéia de que participa do esforço de guerra dos aviões franceses contra a organização terrorista Al-Qaida e seus subterrâneos. Tachkent não tem a menor vontade de se expor às possíveis represálias de grupos de talebans sobreviventes. E eis por que os soldados franceses esperam que a fronteira se abra, enquanto Mirages 2000 D continuam a aguardar a designação de seu local de estacionamento e suas autorizações para sobrevoarem. Será decidido mais tarde. Provavelmente, após o Ramadã. Leia o especial

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.