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David Guttenfelder/AP
David Guttenfelder/AP

A difícil reconstrução de cidades fantasmas em Fukushima 10 anos após tragédia

Nos meses que se seguiram à catástrofe foi proibido o acesso a até 12% do departamento de Fukushima, ou seja, mais de 1.650 km²; até 165 mil habitantes acabaram deslocados por obrigação ou escolha

Redação, O Estado de S.Paulo

11 de março de 2021 | 10h00

NAMIE, JAPÃO - Masakazu Daibo reabriu o restaurante de enguias de sua família em Namie, uma pequena cidade do nordeste do Japão, esvaziada após a catástrofe nuclear de Fukushima, em março de 2011. Mas por enquanto tem apenas vizinhos. O restaurante continua cercado de prédios abandonados, cobertos por ervas daninhas, no antigo centro de Namie, bem ao lado da estação ferroviária.

Dez anos depois do terremoto submarino que originou um tsunami que provocou, por sua vez, o pior acidente nuclear do mundo desde Chernobyl, as cidades que enfrentam a ameaça da radiação se perguntam: como reconstruir uma comunidade?

Nos meses que se seguiram à catástrofe foi proibido o acesso a até 12% do Departamento de Fukushima, ou seja, mais de 1.650 km². Até 165 mil  habitantes acabaram deslocados por obrigação ou escolha.

As autoridades declararam muitas regiões como seguras após as operações de descontaminação realizadas nos últimos anos. Mas muitos dos deslocados de Fukushima hesitam em voltar, apesar dos incentivos financeiros do Estado e dos aluguéis baratos.

Masakazu Daibo se atreveu a dar o passo no ano passado para se ocupar do restaurante que seu avô tinha em Namie antes da catástrofe, a cerca de 9 km da usina nuclear acidentada.

Cães errantes, vacas e porcos

Namie e outras 11 cidades vizinhas faziam parte de uma zona de exclusão ao redor da usina nuclear, acessível apenas para visitas breves durante anos. "Não havia ninguém, mas a cidade permanecia. Era como um cenário de filme", conta à agência France Presse Daibo, de 65 anos. "Só via cães de rua, vacas e porcos."

Por causa da radiação, foi preciso derrubar as paredes e Masakazu Daibo teve de jogar fora tudo o que havia no interior. Agora, espera que seus clientes recuperem, graças a ele, o "sabor de antigamente". "Espero que a minha presença seja um raio de sol para esta cidade."

As restrições foram suspensas para a quinta parte do território de Namie, cuja população atual (de 1.580 habitantes) representa apenas 7,5% da de antes de março de 2011. Cerca de 36% dos moradores têm 65 anos ou mais, em comparação com 29% da média nacional. Os colégios do município têm apenas 30 alunos, contra os 1.800 de dez anos atrás.

O Japão sofre um forte processo de envelhecimento demográfico, mas no caso de Namie "é como se o futuro em 20 anos tivesse chegado de uma vez", explica Takanori Matsumoto, um funcionário municipal. "Nosso principal desafio é sobreviver como comunidade", admite.

Cerca de 337 km², isto é, 2,4% da superfície do Departamento de Fukushima, continuam inabitáveis atualmente e a população de "deslocados" diminuiu para 36 mil pessoas, segundo cifras oficiais que muitos consideram subestimadas.

O governo não fixou uma data para a suspensão das ordens de retirada restantes, e persistem dúvidas sobre a duração do desmantelamento da usina de Fukushima Daiichi, que se acredita que possa durar 30 ou 40 anos.

Por enquanto, só foram limpos 15% da zona de descontaminação delimitada pelo governo, denunciou a organização ambientalista Greenpeace em um relatório publicado na semana passada, baseando-se em suas próprias medições de radiação.

'Ninguém abre a porta'

"Se estivesse sozinha, voltaria", garante Megumi Okada, uma mãe que deixou Fukushima depois da catástrofe, embora não morasse em uma zona de retirada. "Mas como mãe, sinto que quero evitar riscos para meus filhos", acrescenta Okada, que agora mora em Tóquio.

A volta às vezes deixa um sabor amargo. Takao Kohata, de 83 anos, voltou a Minamisoma, ao norte da usina acidentada, mas os pais de seus quatro netos não lhes permitem visitá-lo por medo da radiação. "Entendo perfeitamente suas preocupações, mas me sinto um pouco triste e sozinho", confessa.

Masaru Kumakawa, também de 83 anos, voltou a Namie há três anos, embora tenha sido o local onde perdeu a mulher no tsunami de 2011. Ele dirige uma associação para restabelecer os vínculos entre os moradores, mas enfrenta dificuldades para criar laços com seus novos vizinhos. "Viveram como deslocados por tempo demais", diz. "Você bate na porta, mas ninguém abre"./AFP 

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