A diplomacia de Santos

Na ponta do lápis, a 6ª Cúpula das Américas impressiona. Para abrigar as autoridades e suas comitivas em Cartagena, na Colômbia, foram mobilizados 5 mil policiais especiais, 680 viaturas, 6 aeronaves e helicópteros, incontáveis câmeras de segurança e sensores eletrônicos para detectar explosivos e drogas.

Mac Margolis, O Estado de S.Paulo

15 de abril de 2012 | 03h03

Pudera. Reunir e conduzir o encontro de chefes de Estado de 34 países do continente pode ser a glória ou o pesadelo de qualquer anfitrião. Apenas na comitiva do presidente americano, Barack Obama, havia mil integrantes.

O mais impressionante desta edição da reunião trienal, que se encerra hoje na costa colombiana, não é a parafernália sofisticada nem tampouco o desfile do poder bélico, mas a invisível e espinhosa engrenagem diplomática e política dos bastidores.

O continente pode não ser um zona de convulsão. Não há movimentos separatistas ou guerras. Ninguém está confeccionando uma ogiva nuclear na moita. No entanto, as relações nas Américas tampouco são flores e orquestrá-las exige habilidades incomuns. E é aqui que Juan Manuel Santos, presidente da Colômbia, começa a brilhar.

Não fossem a astúcia e o empenho do colombiano, essa cúpula poderia ter implodido na véspera. A primeira mina terrestre foi Cuba. Hermano inconveniente das Américas, o regime cubano ainda encarna a reserva sentimental latino-americana, o Davi que parou o Golias ianque.

Sua ditadura, porém, choca-se com o compromisso democrático cada vez mais sólido. Para não espantar Obama, coube a Santos desconvidar Havana, sem pisar em fundamentalismos vizinhos.

Ninguém se esquece de 2002, quando o então presidente mexicano Vicente Fox pediu discrição a Fidel Castro em uma cúpula da ONU para assegurar a participação de George W. Bush. Fidel gravou o telefonema e a intimação de Fox: "Pode vir, mas coma e vá embora" , disse Fox.

Desta vez, o papel de homem-bomba sobrou para o presidente equatoriano, Rafael Correa. Em solidariedade a Castro, ele boicotou a reunião colombiana e tentou levar consigo os companheiros da aliança bolivariana. São 11 os sócios do projeto do venezuelano Hugo Chávez, a maioria ilhas inexpressivas caribenhas, mas sua ausência em bloco seria um desfalque na mesa de 34 lugares.

Trabalhando nos bastidores, Santos soltou pêsames anódinos. "Gostaria que fosse a última cúpula sem Cuba", disse. O colombiano também isolou Correa, evitou a debandada bolivariana e garantiu o fim de semana caribenho de Obama. Até o patriarca Chávez fez questão de confirmar sua presença, apesar do tratamento contra um câncer.

Não foram gestos pequenos. Embora isenta há décadas de guerras abertas, a América Latina ainda vive uma diplomacia conturbada. Bolivianos e peruanos brigaram com os chilenos pelo acesso ao mar, uma querela que data do século 19.

Ano passado, Nicarágua invadiu um pântano da Costa Rica apoiada por mapas fajutos. A disputa de uma fábrica de celulose na fronteira levou Uruguai e Argentina à Corte Internacional de Justiça, em Haia, em 2010.

Enquanto isso, a Colômbia brigava com todo mundo. Sob a mão dura do então presidente Alvaro Uribe, Bogotá se aproximou dos Estados Unidos e enfrentou Hugo Chávez, que reagiu fechando a fronteira do seu maior parceiro comercial.

Para desentocar guerrilheiros colombianos das selvas vizinhas, Uribe bombardeou um campo de insurgentes no Equador, operação comandada pelo então ministro de Defesa Juan Manuel Santos. Suceder o popular Uribe parecia temeroso. Santos, um economista de fala mansa, tinha tudo para fraquejar. Sua proeza foi contornar o belicismo da era uribista e preservar a mão firme contra a guerrilha e a bandidagem.

Logo, o colombiano procurou Chávez, desfazendo em uma tarde quase uma década de guerra fria e oportunidades econômicas perdidas. Também fez as pazes com Correa, que o proibira de pisar em território equatoriano sob pena de prisão.

Cordial com os EUA, desfez o acordo com Washington para ampliar sua presença militar no país. Santos cortejou a China e convenceu o Congresso americano a aprovar o tratado de livre comércio, emperrado desde 2006. Não se sabe ainda o saldo de Cartagena, mas ninguém dúvida que em Santos, América Latina já tem um novo protagonista.

   

MAC MARGOLIS É COLUNISTA DO ESTADO, CORRESPONDENTE DA REVISTA NEWSWEEK, EDITA O SITE WWW.BRAZILINFOCUS.COM

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