A diplomacia está morta

Soluções eficazes requerem paciência, discrição e vontade de falar com o inimigo, tudo o que não temos hoje em dia

ROGER COHEN - THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

22 de janeiro de 2013 | 02h07

A diplomacia eficaz - do tipo que produziu o reatamento por Richard Nixon das relações com a China, o fim da Guerra Fria em termos americanos, ou o acordo de paz Dayton, na Bósnia - requer paciência, persistência, empatia, discrição, ousadia e uma disposição de conversar com o inimigo. Estamos numa uma era de impaciência, mutabilidade, tagarelice, indigência mental e uma falta de vontade de falar com os maus sujeitos.

Os direitos humanos estão na moda, uma coisa boa, é claro, mas o espaço para uma condução realista do tipo que produziu a paz bósnia em 1995 diminuiu. A realpolitik de Richard Holbrooke não era para melindrosos.

Há outras razões para a morte da diplomacia. Os EUA perderam sua posição dominante sem que nenhuma outra nação assumisse seu lugar. O resultado é um mundo de ninguém. É um lugar onde os EUA agem como um chefe cauteloso, alternadamente encorajando outros a tomar a frente e se preocupando com a perda de autoridade. A Síria tem sido uma lição pouco edificante do curso de uma crise quando a diplomacia está morta. A Argélia mostra como os mortos se empilham quando os entendimentos são descartados como perda de tempo.

A violência, do tipo que a diplomacia um dia resolvia, mudou. Como disse William Luers, um ex-embaixador na Venezuela e diretor de The Iran Project, ela ocorre "menos entre Estados e mais no trato com terroristas". Um resultado é que "os militares e a CIA estavam no assento do motorista nos entendimentos com governos por todo o Oriente Médio e nas relações de Estado para Estado (Paquistão, Afeganistão, Iraque)". O papel dos diplomatas oficiais encolheu.

Aliás, a própria palavra "diplomacia" ficou fora de moda no Congresso, onde suas associações frouxas - trocas, compromisso, flexibilidade, concessões - são evitadas pelos congressistas, que preferem rufar os tambores de confronto, rigidez e inflexibilidade do pós-11 de Setembro: que podem soar bem, mas não levam a parte alguma.

Stephen Heintz, presidente do Rockefeller Brothers Fund, escreveu: "Quando a política doméstica envereda para a polarização e a paralisia, o impacto sobre as possibilidades diplomáticas se torna desorganizadamente limitador". Ele citou Cuba e Irã como exemplos disso; eu acrescentaria israelense-palestina. Essas questões críticas de política externa são vistas menos como desafios diplomáticos do que como fontes potenciais de capital político doméstico.

Assim, quando me perguntei o que esperava que o segundo mandato de Barack Obama inaugurasse, minha resposta foi uma nova era de diplomacia. Ainda não é tarde demais para o presidente ganhar aquele Prêmio Nobel da Paz.

É claro que os diplomatas fazem muitas coisas valiosas mundo afora e mesmo no primeiro mandato houve algumas mudanças significativas - em Mianmar, onde a diplomacia americana paciente produziu uma abertura, e no instável novo Egito, onde a aproximação americana da Irmandade Muçulmana foi importante (e suscitou a questão de quando os EUA fariam o mesmo com o rebento da Irmandade, o Hamas). Mas Obama não conseguiu nenhuma grande ruptura. A calmaria da diplomacia americana está se aproximando do seu20.º ano.

Há algumas razões modestas para pensar que a tampa do caixão da diplomacia pode abrir uma fresta. Este é um segundo mandato. Obama está menos comprometido com os caprichos estridentes do Congresso. A direita republicana que não quer ceder um milímetro está mais fraca. Em John Kerry e Chuck Hagel, seus nomeados para secretário de Estado e secretário da Defesa, Obama escolheu dois profissionais competentes que já viram guerra o bastante para abominá-la. Eles sabem que a paz envolve riscos. As grandes guerras estão se retraindo. Os comandantes militares podem ceder algum espaço aos diplomatas.

Uma diplomacia inovadora não é conduzida com amigos. É conduzida com gente como o Taleban, os aiatolás e o Hamas. Ela envolve aceitar que, para se obter o que se quer, é preciso dar alguma coisa. Ou, coloque-se a questão como Nixon ao buscar um terreno comum com a China comunista: O que nós queremos, o que eles querem, o que ambos queremos? Obama experimentou uma série de enviados especiais no primeiro mandato. Não funcionou. Ele precisa dar poder ao secretário de Estado para fazer o trabalho duro sobre Irã e israelense-palestina. Luers sugeriu que uma "ideia para uma Nova Diplomacia seria Hagel e Kerry levarem junto senadores de ambos os partidos em suas viagens ao exterior e a locais problemáticos. Isso era uma prática comum. Ser ousado com o Senado e tentar aproximá-los".

Para a diplomacia ser bem-sucedida, o barulho precisa ser eliminado.

Há muitos cidadãos-diplomatas sonhadores hoje em dia por aí, tagarelando sobre soluções ilusórias de um Estado para a questão israelense-palestina, e coisas do gênero. A mídia social e a conectividade trazem benefícios imensos. Elas ajudaram a instigar a onda de libertação conhecida como Primavera Árabe. São multiplicadores de força para abertura e cidadania, mas podem desviar da diplomacia de realpolitik, focada, que trouxe as maiores inovações de 1972, 1989 e 1995. Já é hora de termos outra. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

* É COLUNISTA

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