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A diplomacia melindrada

O presidente venezuelano, Nicolás Maduro, ainda pode sobreviver à convulsão que engole seu país desde o início de fevereiro, quando universitários foram às ruas e incendiaram uma revolta nacional. Afinal, Maduro ainda detém o monopólio da força, as chaves do tesouro e a procuração do padrinho beato, o falecido presidente Hugo Chávez.

Mac Margolis, O Estado de S.Paulo

23 de fevereiro de 2014 | 02h02

Se Maduro vai cair ou não é um detalhe. A revolução bolivariana, tal como Chávez a desenhou e a conduziu durante quase uma década e meia, um socialismo militarizado, com um pé no século 19 e outro no século 21, já não existe mais. Foi-se na pior inflação do mundo, que imolou o soldo do trabalhador. No câmbio irreal, que elevou o dólar a 12 vezes o seu valor oficial. No colapso da rede elétrica, que deixou o país no breu e as ruas para os bandidos.

Virá a sonhada guinada para a democracia ou um golpe de Estado? Ninguém arrisca dizer o que emergirá da fuligem, mas dificilmente a Venezuela será a mesma depois da revolta popular que começou na Universidade de San Cristóbal e se espalhou pelas praças públicas país afora.

Já para o resto da América Latina, tudo segue serenamente igual. Enquanto os manifestantes apanhavam nas ruas, ora da polícia, ora dos bandoleiros chavistas, a reação na região foi discreta. Ou pior. Os familiares enterravam os primeiros três mortos dos protestos quando os países membros do Mercosul soltaram uma nota sobre os tumultos. Em papel timbrado do bloco, declararam seu apoio total ao governo Maduro.

Nenhuma palavra sobre Leopoldo López, líder da oposição que o governo prenderia sob a acusação fantasiosa de sedição e assassinato. Ou sobre a mordaça contra a imprensa independente e o bloqueio à internet na região rebelde. Silêncio total.

Após o ataque dos motoqueiros armados contra estudantes, os países vizinhos ofereceram apenas o fraternal deixa-disso, convocando "as partes a continuar aprofundando o diálogo sobre as questões nacionais", como se fosse uma rusga esportiva.

Assim foi o refrão pelas Américas, alguns companheiros em tons mais trêmulos que outros. Bolívia, Equador e Nicarágua, países sócios da aliança bolivariana, seguiram o libreto chavista, condenando a oposição e sua "tentativa de golpe de Estado".

Já Chile e México, do flanco "conservador" do continente, falaram, mas suavemente. Da "direita", apenas a Colômbia elevou o tom - e, então, só para condenar o governo Maduro pelo ato de retirar do ar uma emissora de TV colombiana.

Não foi diferente na OEA, a Babel da região, onde todos comentaram a conflagração venezuelana e, em deferência à soberania acima dos direitos humanos, nada se resolveu. "Parem de fazer vista grossa!", gritaram os manifestantes na porta da organização, em Washington, enquanto ardiam as ruas de Caracas e San Cristóbal. "Façam seu trabalho!" Sobrou para os Estados Unidos o figurino do ogro, na pele do secretário de Estado, John Kerry. O chanceler americano condenou a violência e cobrou explicações do governo Maduro pela prisão de Leopoldo López. Depois, engrossou.

"As liberdades de expressão e de reunião pacífica são direitos humanos universais. São essenciais para que uma democracia funcione e o governo venezuelano tem a obrigação de proteger essas liberdades fundamentais, assim como a segurança de seus cidadãos", afirmou.

Foi a senha para a expulsão de três diplomatas americanos em Caracas e para um novo refrão de anti-imperialismo. Essa, sim, é a cantilena conhecida nas Américas. Uma região tão unida e sonora em sua rechaça à ingerência de Washington e tão melindrada frente à toada bolivariana.

*Mac Margolis é colunista do 'Estado', correspondente do site The Daily Beast e edita o site www.brazilinfocus.com. 

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