A diplomacia no brejo

Ara ambígua é uma ave tropical que vive nas selvas da Costa Rica. Imponente e bandeirosa - seu nome comum é arara-verde-grande -, ela é vítima de desmatamento e alvo de traficantes de animais silvestres, que já a levaram à lista das espécies mais ameaçadas do hemisfério. Mas não é a única.

MAC MARGOLIS, O Estado de S.Paulo

27 de fevereiro de 2011 | 00h00

Homo diplomata é outro integrante conhecido da fauna latina. Falante e igualmente bandeirosa, essa espécie - embora farta no seu ecossistema - também passa por momentos delicados. Ela é vítima não de malfeitores externos, mas de um desprestígio cavalar que coloca em cheque tanto sua nobre arte como também a tranquilidade e a convivência pacífica de todo o hábitat. Considere o contencioso entre Costa Rica e Nicarágua.

Ano passado, engenheiros nicaraguenses iniciaram obras de dragagem do leito do Rio San Juan na Ilha de Calero, uma ilha fluvial na fronteira.

O pretexto era a desobstrução do leito do San Juan, mas a Nicarágua nutre ambições maiores e sua equipe - escorada por um pelotão de soldados - se apossou da península costa-riquenha, reacendendo uma disputa secular. É apenas um naco de pântano de 3,5 quilômetros quadrados, mas abriga uma arca de vida silvestre tropical - entre elas, a arara-verde-grande - que é um dos maiores patrimônios da Costa Rica. Outro é o fato que Costa Rica não tem Exército. Dispensou-o há mais de 60 anos, com a arrojada ideia de que, ao invés de gastar as turras com armamentos, muito melhor seria apostar na força da diplomacia regional amparada pelas leis e foros internacionais.

Por isso o governo de San José formalizou uma queixa contra a Nicarágua na Corte Internacional de Haia, que deve pronunciar-se sobre o caso em 8 de março. A política fez da pequena Costa Rica uma ilha de paz, progresso e prosperidade numa das regiões que já fora uma das mais conflagradas do mundo. Conquistou-lhe a reputação de país moderado e neutro, levando o ex-presidente Oscar Arias ao Prêmio Nobel da Paz. Mas se depender da diplomacia regional, tudo isso pode acabar no brejo.

A Guerra Fria na América Central acabou há quase três décadas, mas as velhas bandeiras ideológicas ainda abanam sobre Manágua. Daniel Ortega, ex-guerrilheiro do movimento sandinista, trocou as armas pelas urnas e se elegeu presidente. Tornou-se acólito do presidente venezuelano, Hugo Chávez, e com ele aprendeu a usar as regras da democracia para deformá-la.

Limitado pela Constituição a dois mandatos consecutivos, Ortega mandou revirar a Carta nicaraguense. Hoje lidera com folga a corrida para a eleição presidencial, marcada para novembro. Mas nada como um algoz externo para acender os palanques. E assim o líder sandinista, munido de seu pelotão e uma versão polêmica (e errada, descobriu-se depois) de Google Maps, decidiu abocanhar uns metros quadrados do território vizinho.

E o restante da América Latina? "Os povos da América têm direito à democracia e seus governos têm a obrigação de defendê-la e promovê-la", diz a Carta Democrática Interamericana, assinada por 34 países em 2001. Desde então, no entanto, os signatários do pacto fazem uma leitura parcial e bastante tendenciosa das suas regras.

Todos os países na região fazem questão de condenar golpes de Estado, como o de 2002 que removeu (temporariamente) Chávez do poder. Em 2009, levantaram-se contra a derrubada do presidente de Honduras, Manuel Zelaya. Mas o compacto latino-americano tem sido muito mais condescendente com os líderes de esquerda.

O regime cubano é au concours, blindado por uma indulgência reverencial, não importa como nem o quanto a confraria Castro pisoteia os direitos humanos da ilha. Mais curiosa é a leniência com os governantes que usam as próprias regras da democracia para miná-la por dentro.

Assim, as mesmas nações que trovejaram contra a derrocada de Zelaya silenciaram quando ele mobilizou os devotos para tentar a reeleição, ato proibido por artigo pétreo da Constituição hondurenha. E à exceção de um puxão de orelha das Organizações dos Estados Americanos, poucos se manifestaram quando Chávez alavancou sua maioria esmagadora no Congresso e nos tribunais amigos para rasgar a Constituição, manipular as eleições e defenestrar a nova Assembleia Legislativa, onde a oposição teria mais força.

Se a incursão nicaraguense em território vizinho ainda não irrompeu em conflito armado é porque a Costa Rica continua respondendo com diplomacia e leis, e não balas. Fora disso, ninguém sabe, ninguém viu. O chanceler costa-riquenho, René Castro, que recentemente fez um giro internacional para levantar apoio, ainda espera ajuda dos vizinhos latino-americanos. Talvez seria mais fácil salvar araras.

É CORRESPONDENTE DA "NEWSWEEK", COLUNISTA DO "ESTADO" E EDITA O SITE WWW.BRAZILINFOCUS.COM

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