A diplomacia perversa dos novos tempos

Os crimes terroristas do dia 11 de setembro provocaram uma mudança extraordinária em todo o cenário diplomático. Os sistemas de aliança, assim como os sistemas de antagonismo, que se formaram lentamente ao longo dos últimos quinze anos, foram bruscamente rompidos e outras tramas os substituíram. Essas novas tramas foram tecidas com urgência, em situação de perigo e, às vezes, de improviso. Além disso, não são todas igualmente satisfatórias. Foi assim que o Fundo Monetário Internacional (FMI) recebeu de seus acionistas ? e do mais poderoso deles, os Estados Unidos ? a recomendação de zelar, de sustentar prioritariamente, os países que entraram na coalizão. Para o Paquistão, um ganho inesperado: a partir do dia 26 de setembro, ele recebeu um empréstimo de 235 milhões de dólares. E o que é melhor: vão ser abertas negociações no Clube de Paris para reescalonar a dívida do Paquistão. Uma dívida de 38 bilhões de dólares! Além disso, o Paquistão ganha por todos os lados: o orçamento americano acaba de aprovar uma ajuda de 50 bilhões de dólares para o Paquistão. Até aí nada de novo: após a guerra do Golfo, em 1991, o Egito, o Marrocos e a Jordânia receberam belos presentes. Mas o Paquistão e seu regime militar não foram os únicos a se engajar na ?cruzada do bem contra o mal?, no combate da ?democracia contra o terror?. Na verdade, felizmente, a ?democracia? conseguiu um grande número de apoios. Entre esses apoios, Putin, que não é um cordeiro nem na Chechênia nem na Rússia. A Arábia Saudita, a mais fundamentalista dos países islamitas, com sua rude ?política religiosa? ? a Arábia é Wahabite, o ramo mais fanático do Islã (é bem verdade que a Arábia apóia a ?coalizão? sem muito empenho, com o empenho apenas dos donos do petróleo). Outro soldado da democracia: o Uzbequistão, cujo presidente Karimov, comunista determinado, é simplesmente um tirano. Se examinarmos detalhadamente, mesmo na ?Aliança do Norte?, ou seja entre os afegãos heróicos que, com toda a razão, não aceitam o horror dos talebans, encontram-se personagens muito pouco recomendáveis, como o general Dostom. E por que não a China, a China do Tibete, de Tian na Men? Não. A China, não! Escapamos de um perigo... É claro que a situação era tão ameaçadora, tão cruel, que não se podia ?fazer charme?. Foram obrigados a aceitar todos aqueles que quiseram se associar contra os talebans e contra Bin Laden, inclusive alguns diabos. Nessas circunstâncias, a ?real politik? se impôs. Em compensação, podemos lamentar três coisas: em primeiro lugar, que a frota da democracia contenha tantas ditaduras. Em seguida, que o dia em que os talebans forem, finalmente, abolidos da superfície da terra, o Ocidente deverá administrar seus novos e demoníacos conluios e isso não será nada fácil. Terceira observação: embora vários países pouco dignos ganhem a ?sorte grande? e recebam centenas de milhões de dólares, quantos países emergentes e miseráveis assistem, mais uma vez, ao Papai Noel passar diante de seu nariz sem sonhar em abrir seu saco de presentes, que já foi esvaziado em benefício de países ligeiramente sinistros. Leia o especial

Agencia Estado,

08 Outubro 2001 | 17h28

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