A discreta linha chinesa frente à guerra do Iraque

Potência emergente governada por comunistas e nação ideologicamente mais à esquerda entre os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança nas Nações Unidas, a China registrou sua oposição à invasão do Iraque mas vêm mantendo um perfil extremamente discreto desde que as tropas americanas e inglesas iniciaram sua marcha rumo à Bagdá, na semana passada. A declaração oficial do governo de Pequim condenando o ataque foi lida pelo porta-voz do ministério das Relações Exteriores, e não pelo chanceler. Até agora, não se ouviu uma única palavra do primeiro-ministro e do presidente da China sobre o assunto. Segundo o correspondente do jornal South China Morning Post em Pequim, uma manifestação contra a guerra, na última sexta-feira, reuniu apenas 70 pessoas num parque da cidade. A televisão oficial tem mostrado algumas reportagens simpáticas ao Iraque, mas cancelou a apresentação de um debate gravado com especialistas ocidentais, no último domingo, porque suas opiniões foram consideradas excessivamente contrárias à guerra. A atitude chinesa é instrutiva para países em desenvolvimento de dimensões continentais, como o Brasil e a Índia, que, na defesa de seus interesses, anseiam por uma maior presença na cena mundial. ?Os chineses tomaram a decisão fundamental de que querem manter uma relação mutuamente benéfica e construtiva com os Estados Unidos?, disse ontem ao Estado Kenneth Lieberthal, um dos mais respeitados sinólogos americanos que acumula as funções de catedrático de ciência política da Universidade de Michigan e diretor senior da Stonebridge-Internacional, firma de consultorai estratégica sediada em Washington. ?Essa decisão é resultado do enorme foco da China no desenvolvimento econômico do país e está relacionada tanto com seu desejo de manter bons laços econômicos com os EUA, que é mercado de 40% das exportações chinesas, como do desejo de evitar um agravamento ainda aida maior das tensões internacionais, que desviaria recursos e atenção da agenda doméstica?.Melhor é trabalhar com os EUA Segundo Lieberthal, que retornou esta semana de uma de suas frequentes viagens à China, o governo de Pequim ?reconhece o poder global e regional americano, na Ásia, e prefere trabalhar com os EUA, embora às vezes de forma crítica, em lugar de assumir uma postura de confrontação e tomar posições baseadas em princípio, que consumiriam recursos e provavelmente não produziriam um resultado satisfatório?. O especialista vê um importante ponto em comum entre o Brasil e a China na atual crise internacional. ?Para a China e para o Brasil, o Iraque é um lugar muito distante?, disse ele. ?Para os chineses, a principal preocupação com segurança é a Coréia do Norte e eles estão buscando maneiras de cooperar com os EUA para reduzir o perigo do desenvolvimento ( de combustível para arma) nuclear e de conflito militar na pensínsula coreana?. A posição de Pequim sobre a crise é orientada pelo cálculo segundo o qual, por razões de princípio e de interesse político doméstico, ?os chineses querem manter uma postura clara de oposição às ações americanas que, em sua visão, não tem aprovação do Conselho de Segurança e é unilateral; paralelamente, eles sempre apoiaram a integridade territorial e a integridade dos estados?. Ajuda na formulação da resolução Lieberthal lembra que, durante os debates sobre o Iraque no Conselho de Segurança, a China ajudou a formular a resolução 1441. Segundo ele, os chineses tentaram também contribuir para viabilizar uma segunda resolução. ?Eles não ameaçaram usar o veto e creio que não teriam acompanhado os vetos francês e russo? se uma segunda resolução tivesse sido votada e aprovada. ?A China assumiu uma postura pública de princípio mas, em privado, atuou de maneira a ajudar a reduzir diferenças?, disse Liebethal.Para o professor, o próximo teste das relações sino-americanas ocorrerá depois que a guerra terminar. ?Não há desacordo de que as Nações Unidas devem ter um papel importante na coordenação da assistência humanitária aos iraquianos?, disse ele. ?Mas há um potencial para um forte desentendimento sobre a nomeação de um governo civil no pós-guerra?. Lieberthal acredita que a Inglaterra assumirá uma posição mais próxima à da França do que a dos Estados Unidos à respeito da necessidade de dar ao Conselho de Segurança um papel na legalização e legitimação do governo que administrará o Iraque pós-Saddam Hussein. Nesse caso, a China estará no lado da Inglaterra.?A análise que os dirigentes chineses fazem é a seguinte: eles acreditam, a meu ver corretamente, que a administração está profundamente dividida sobre quanto valor dar a esforços diplomáticos para melhorar as relações dos EUA com vários países, depois do conflito?, disse ele. ?Alguns na administração acham que os EUA devem liderar com base no seu poderio e que o resto do mundo virá atrás, porque todos gostos de um vencedor; um outro grupo acredita na diplomacia tradicional e na importância de cultivar o soft-power?, que significa convencer outros países sobre a correção de seus argumentos.Depende do curso da guerra?O curso da guerra determinará a influência relativa dos dois grupos junto ao presidente (George W.) Bush?, afirmou Lieberthal. ?Se a guerra terminar dentro de uma semana e meia com uma vitória total, os unilateralistas sairão reforçados; se ela se transformar numa guerra mais longa e difícil, se as promessas feitas pelo secretário (da Defesa, Donald) Rumsfeld e o grupo que o cerca se comprovarem erradas, o grupo favorável a um maior engajamento diplomático ficará numa posição mais forte?.Considerando o segundo desfecho, Pequim ?estará planememente preparada a trabalhar com o grupo que prefere a diplomacia; mas mesmo se isso não acontecer, a China está ansiosa para que o Iraque não se torne o motivo de uma forte fricção em suas relações com os EUA?, afirmou Lieberthal. ?O governo chinês está focalizado no seus interesses e sua maior preocupação de segurança é a Coréia do Norte, e não o Iraque.?Veja o especial :

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