A disputa pela alma árabe depois da revolução

Artigo: Daniel Steinvorth / Der Spiegel

O Estado de S.Paulo

09 de dezembro de 2012 | 02h03

A ascensão do Islã político, na esteira da Primavera Árabe, preocupa muitos com a possibilidade de que as conquistas democráticas da revolução se percam. No Egito e na Tunísia, os cidadãos estão saindo novamente às ruas. Mas, desta vez, a oposição é ao islamismo. Será que o secularismo ainda tem alguma chance? O homem forte do Egito estava sentado na primeira fila da mesquita. "Qualquer um que critique o presidente é pior do que os hereges que atacaram o Profeta em Meca", pregou o imã. Em seguida, entregou o microfone para o presidente Mohamed Morsi, dizendo que ele próprio devia se dirigir aos fiéis. Mas o egípcio não teve tempo de abrir a boca.

"Abaixo Morsi! Abaixo a Irmandade Muçulmana!", entoaram centenas de homens que abriam passagem para chegar à frente da mesquita. "Já chega! Não à tirania!" Para eles, ver o presidente ser comparado com o Profeta Maomé foi a gota d'água. Morsi, cercado por guarda-costas, teve de deixar a mesquita. Foi um escândalo, algo inédito no Egito.

Era só o começo. Posteriormente, mais de 100 mil pessoas ocuparam a Praça Tahrir, de novo para protestar contra as medidas adotadas pelo presidente. Não há indícios de que as tensões diminuirão no Egito e é difícil prever o resultado do atual cabo de guerra. O presidente, que se outorgou poderes ditatoriais, não parece impressionado com a revolta dos seculares. Numa manobra apressada, Morsi submeteu a voto um novo texto constitucional. E a Assembleia Constituinte, dominada por islamistas, votou claramente a favor da adoção da sharia islâmica no país. Em breve, a proposta de Constituição será levada a referendo. A oposição, porém, não aceita e está determinada a deter a Irmandade.

Os islamistas enfrentam resistência. A Irmandade quer demonstrar força, sobretudo no Egito, onde foi fundada, pois sabe que está em andamento uma disputa acirrada sobre o papel do Islã político, em especial nos países árabes que depuseram seus ditadores recentemente. Na Síria, onde a guerra continua a causar destruição, ainda não está claro se o Estado secular ficará sob ameaça, caso as forças mais radicais da oposição predominem.

Dois anos após a eclosão das insurgências no Norte da África e no Oriente Médio, os islamistas parecem ter sido os vencedores. Muitos agora dizem que a Primavera Árabe foi sucedida por um inverno islamista. Em 2011, o mundo ficou eufórico com a luta pela liberdade travada na Praça Tahrir. No entanto, uma sombra encobriu a revolução quando milícias líbias exibiram o corpo ensanguentado do ditador Muamar Kadafi. E o derramamento de sangue diário na Síria é o clímax terrível de um processo que saiu de controle.

Resistência. O mundo árabe, novamente, traz mais preocupação do que esperança para o Ocidente. Os islamistas estão ganhando eleições e formando governos - e até os ultraconservadores salafistas, um pessoal suspeito que promete acabar com a democracia assim que puder, de repente, começam a ter um papel de destaque. Também querem acabar com as liberdades conquistadas pelas mulheres árabes, banir os biquínis das praias frequentadas por turistas e transferir a administração da Justiça para estudiosos do Islã. A revolução acabou? Ainda não.

A luta pela alma árabe ainda não está decidida. Em todos os lugares em que ganham força, os movimentos apoiados pelo Islã político enfrentam ampla resistência. Vale a pena submeter a um exame mais apurado os países envolvidos na Primavera Árabe.

Outros países. No início de novembro, um imã egípcio que fora pregar na Líbia teve experiência similar à de Morsi. Foi obrigado a interromper seu sermão quando o público resolveu parar de ouvir suas palavras e deixar a mesquita. Pouco depois do colapso do regime de Kadafi, a Irmandade Muçulmana egípcia sentiu que chegara o momento de mandar imãs radicais para o país vizinho. Esses imãs organizaram um braço do grupo em Benghazi e fundaram uma editora de livros e uma emissora de televisão. Prepararam-se para as primeiras eleições legislativas livres do país, fizeram uma campanha com fortes tintas morais, mas foram facilmente derrotados pela moderada Aliança das Forças Nacionais.

A Líbia não é o único país que reage à imigração deliberada de grupos radicais. Contradições existem ainda no Iêmen e na Tunísia. E o que acontecerá com a Síria se o regime cair? Ninguém sabe com exatidão quantos jihadistas estrangeiros apoiam atualmente a rebelião na Síria, mas sua presença é incontestável. / TRADUÇÃO DE ALEXANDRE HUBNER

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