'A ditadura na Tunísia agora é outra'

Brasileira narra tensão vivida por estrangeiros na Tunísia durante ataques de militantes salafistas

EDUARDO DUWE, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

16 de setembro de 2012 | 03h02

Faltavam quatro horas para Lucas chegar em casa quando o telefone tocou. A artista plástica brasileira Aline Dalva Ducrow, de 41 anos, há quase 3 vivendo na Tunísia, tinha sido avisada de que algo ruim ocorreria na sexta-feira.

"Não vá para Túnis porque na mesquita falaram que vão fazer manifestações contra algum filme falando mal do nosso profeta", disse-lhe a babá de sua filha menor, de 3 anos. No telefonema, o filho lhe contou que o mandaram de volta para casa porque temiam que algo acontecesse à escola. "Estou mais assustada agora do que na revolução", relata, referindo-se aos protestos que deram início ao que viria a ser chamado Primavera Árabe. "A ditadura agora é outra. É uma ditadura religiosa, com uma grande manipulação por trás."

Lucas, de 10 anos, estuda na escola americana American Cooperative School of Tunis, que foi atacada horas mais tarde por radicais salafistas, em meio à onda de protestos antiamericanos que tomou os países islâmicos, provocada pelo filme Inocência dos Muçulmanos, que ridiculariza Maomé. "O ônibus sai da escola e deixa ele ao lado de casa. A embaixada (dos EUA) já estava de sobreaviso de que haveria a manifestação e eles mandaram as crianças de volta por volta do meio-dia", conta Aline. "Ele não viu nada. Viu as notícias depois, mas ficou bem assustado."

De acordo com a artista, não se sabe a dimensão do estrago provocado pelos protestos na escola. Provavelmente, as aulas devem ser suspensas. O que mais a preocupa é a falta de reação das autoridades para coibir a violência salafista. "Eu não vou ficar tranquila se deixar meu filho ir para as aulas", afirma. "A reação dos policiais e dos militares foi muito lenta? Por quê? Eles foram pegos de surpresa? Não sei."

Ainda conforme o relato de Aline, a sensação de insegurança cresce com a falta de clareza do novo governo da Tunísia, islâmico moderado, em relação à segurança dos estrangeiros que vivem no país.

O episódio de sexta-feira foi o terceiro momento de tensão vivido por ela no país desde o início da Primavera Árabe. No começo dos protestos de rua contra o ex-ditador Zine Abedine Ben Ali, o bairro onde Aline vive foi palco de saques e atos de vandalismo. A família teve de se esconder por cinco dias em um hotel de Túnis, com outros estrangeiros. "Muitos membros da família de Ben Ali viviam aqui", explica. "Um dia meu marido subiu no telhado de casa e viu uma casa queimando à esquerda e outra à direita."

Há dois meses, Aline sentiu pela primeira vez a ira dos salafistas. Ela participou da exposição Primavera da Arte, em Túnis, invadida e depredada pelos extremistas. A exposição ocorre há nove anos, mas durante a ditadura de Ben Ali era censurada. "Com a revolução, Os artistas vieram com todo fôlego pra falar", diz. "E a reação desta vez foi dos muçulmanos (radicais). Os salafistas invadiram a exposição, incendiaram obras e até hoje artistas estão sendo ameaçados." Agora, a ameaça chegou perto de sua família. "Pelo profeta eles podem fazer qualquer coisa", resume.

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