Mladen Antonov/Agence France-Presse
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A dois dias de expirar, EUA e Rússia anunciam extensão do tratado nuclear Novo Start

Considerado o último tratado de controle de arsenais ainda em vigor, conversas sobre prorrogação do acordo foram negligenciadas por Trump e só concluídas no governo Biden

Redação, O Estado de S.Paulo

03 de fevereiro de 2021 | 12h55
Atualizado 03 de fevereiro de 2021 | 18h02

WASHINGTON — Os governos da Rússia e dos Estados Unidos confirmaram nesta quarta-feira, 3, a extensão, por mais cinco anos, do último acordo de controle dos dois maiores arsenais nucleares do planeta, o Novo Start. O texto, assinado em 2010, perderia a validade na sexta-feira, dez anos depois de sua entrada em vigor, e correu risco de desaparecer nos últimos meses do governo Trump.

"Isso (a extensão do acordo) garantiu a preservação e o funcionamento central de manutenção de estabilidade estratégica, em estrita paridade, limitando os arsenais de mísseis nucleares das duas partes. Tendo em conta a especial responsabilidade de Rússia e EUA como as maiores potências nucleares, foi tomada uma decisão importante, que garante o nível necessário de previsibilidade e transparência nesta área, no respeito estrito do equilíbrio de interesses", afirmou em comunicado o chanceler russo, Sergei Lavrov, logo após o anúncio. 

Por sua vez, o secretário de Estado americano, Antony Blinken, declarou que o novo prazo "deixa os EUA, os seus aliados e parceiros e o  mundo mais seguros", declarando que uma "competição nuclear sem regras colocaria a todos em risco". 

Ao mesmo tempo, não escondeu a nova postura do governo americano em relação a Moscou, a de que o país é uma ameaça à segurança nacional dos EUA.

"O regime de verificação do Novo Start nos permite monitorar o cumprimento da Rússia dos termos do tratado e nos dá uma maior visão da postura nuclear russa, incluindo em trocas de informações e inspeções presenciais, permitindo aos inspetores americanos observar as forças e instalações nucleares russas", declarou Blinken, em comunicado. “Permaneceremos de olhos abertos para os desafios que a Rússia apresenta aos EUA e ao mundo."

O Novo Start, assinado pelos então presidentes Barack Obama e Dmitry Medvedev em 2010 e em vigor a partir de 2011, representou uma redução considerável nos arsenais nucleares dos dois países: cada um pode ter 1.550 ogivas operacionais ao mesmo tempo, uma redução considerável em relação ao Start I (que permitia 6 mil ogivas), além de estabelecer limites aos mísseis balísticos intercontinentais (ICBMs), aos lançados de submarinos (SLBMs) e aos bombardeiros com capacidade nuclear.

Depois do abandono do Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediários (INF) por Donald Trump, em 2019, o Novo Start se viu como o único acordo de controle de arsenais ainda em vigor entre os dois países. O Kremlin pressionava por sua extensão por mais cinco anos, mas Trump tentou barganhar e incluir a China, que tem um arsenal consideravelmente menor do que os de EUA e Rússia.

Pequim rejeitou a ideia, e muito embora diplomatas em Washington e Moscou tenham ficado perto de um acerto, foi só depois da chegada de Joe Biden ao poder que a extensão foi acertada e confirmada em um telefonema dele ao presidente Vladimir Putin

Por sinal, ainda falando da China, Blinken mencionou o país no comunicado desta quarta-feira: ali, ele prometeu buscar um controle de armas para "reduzir os perigos do moderno e cada vez maior arsenal nuclear chinês".

"Os EUA estão comprometidos com um controle de armas efetivo que permita a estabilidade, transparência e previsibilidade, ao mesmo tempo em que reduz as perigosas e onerosas corridas armamentistas", declarou o chefe da diplomacia americana.

De acordo com o centro de estudos americano Associação de Controle de Armas, a China possui hoje cerca de 320 ogivas operacionais. Anteriormente, os diplomatas do país fizeram uma exigência para que o país se juntasse a acordos multilaterais sobre o tema: a de que os todos os signatários, incluindo EUA e Rússia, limitassem ou reduzissem seus arsenais até o nível hoje controlado pelos chineses. / AP e NYT

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