Reprodução / Governo da Colômbia
Reprodução / Governo da Colômbia

Às vésperas de voto sobre acordo, Farc pedem perdão por massacre de 1994

Guerrilheiros fazem ato formal de reconhecimento de responsabilidade pelo massacre de La Chinita, em janeiro de 1994, que deixou 35 mortos

Fernanda Simas, Enviada Especial / Cartagena, Colômbia, O Estado de S. Paulo

30 de setembro de 2016 | 11h10

CARTAGENA, COLÔMBIA - Às vésperas do plebiscito em que a população colombiana votará se aceita o acordo de paz entre o governo do presidente Juan Manuel Santos e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), a guerrilha voltou a pedir perdão, nesta sexta-feira, 30, por atos cometidos no passado.

Na cidade de Apartado, no Departamento (Estado) de Antioquia, as Farc realizaram um ato formal de reconhecimento de responsabilidade pelo massacre de La Chinita, no qual 35 pessoas foram assassinadas durante uma festa na rua em janeiro de 1994. 

Parentes das vítimas do massacre, alguns vestidos de branco, disseram que saudavam o ato de contrição dos guerrilheiros, mas pediram que eles adotem atos de reparação e expliquem o que motivou o ataque. Participaram do ato o alto comissário para a paz, Sergio Jaramillo, e o chefe da delegação negociadora do governo, Humberto de la Calle.

Em 1994, a presença do Estado no bairro de trabalhadores La Chinita era pequena e o controle era disputado pelas Farc, pela guerrilha EPL e pelo M-19, além dos paramilitares. Na madrugada de 23 de janeiro, um grupo de homens armados surpreendeu a população e começou a atirar. Testemunhas dizem ter escutado gritos de “não matem mulheres”. Ao todo, 35 pessoas foram mortas – entre elas, 2 crianças e 1 mulher. 

Esse foi o terceiro pedido de perdão em uma semana feito pelas Farc, o que, segundo Jaramillo, era algo inimaginável havia alguns meses e “só pode ser resultado de um processo de paz”. Segundo especialistas, esses atos podem ajudar na campanha pelo ‘sim’ no plebiscito por mostrarem o lado de arrependimento das Farc. Nesse sentido, durante a cerimônia da assinatura do acordo de paz, o próprio líder da guerrilha, Rodrigo Londoño Echeverri, conhecido como Timochenko, voltou a falar em perdão e pediu desculpas, “em nome de todos das Farc-EP”, pelo sofrimento causado. As vítimas que já se encontraram com integrantes das Farc afirmam que o momento é sempre de emoção. 

Fabíola Permodo, mulher de Juan Carlos Narváez – um dos 11 deputados assassinados no Valle de Cauca, em 2007 –, contou ao Estado duas semanas atrás que só após o encontro com líderes guerrilheiros pôde pôr um fim na história.

Na quinta-feira, em outro ato semelhante, o chefe negociador das Farc, Luciano Marín Arango, conhecido como Iván Márquez, pediu perdão a vítimas do conflito em Boyacá, no Departamento (Estado) de Chocó. A guerrilha entregou um estátua do Cristo Negro de Boyacá à igreja local e fez um discurso pedindo desculpas. 

“Com nossas almas contidas pedimos que nos perdoem e nos deem a esperança do alívio espiritual nos permitindo seguir com vocês no caminho que, reconciliados, nos conduza à era da Justiça que tanto foi afastada dos humildes de todos os cantos da Colômbia”, afirmou Iván Márquez dirigindo-se às famílias. “Temos nossas mãos jurando que jamais tivemos a intenção de causar os terríveis danos que tanta aflição causaram”, completou, afirmando não haver mais rancor e ódio entre os guerrilheiros.

O negociador das Farc também falou em uma “Colômbia de paz”, pedindo a vitória do “sim” no plebiscito de domingo. “Que suas palavras de fé na nova Colômbia, que deve nascer a partir do fim de uma guerra que nunca deveria ter ocorrido, fechem as feridas das almas, que são as mais profundas.”

Balanço. Fontes militares colombianas informaram hoje que as Farc contabilizam 5.765 membros armados, segundo dados publicados no âmbito do acordo de paz para pôr fim a 52 anos de conflito – disseram fontes militares. Esse número foi divulgado hoje, em um foro da Universidade Militar de Bogotá, pelo general Javier Flórez, chefe do Comando Estratégico de Transição. A guerrilha teria também 8 mil colaboradores. 

Em relação a seu poderio militar, Flórez disse que a estimativa é que a guerrilha disponha de 14 mil fuzis e pistolas, além de 6 mil unidades de outro tipo de armamento, como granadas e morteiros./ COM AFP

Veja abaixo: Santos e Timochenko assinam histórico acordo de paz

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