A doutrina do magnata

Donald Trump jamais será presidente. Desculpem-me por eliminar o suspense, mas o ainda provável candidato republicano não vencerá. Abaixo, exponho algumas das muitas razões para isto. Há quatro anos, quando Barack Obama derrotou Mitt Romney, mais da metade de todos os votos era de mulheres. Romney obteve 44% destes votos e perdeu a eleição por uma margem considerável. De acordo com pesquisa realizada na semana passada, somente 23% das mulheres aprovam Trump e, desta vez, quem disputará a eleição contra ele quase certamente será uma mulher.

Ian Bremmer, O Estado de S.Paulo

24 Abril 2016 | 03h00

A mídia em todo o mundo tem levado por demais a sério a possibilidade de um governo Trump. O que não significa que não devamos examinar atentamente suas opiniões no tocante à política externa, pois elas têm forte apoio de uma minoria ruidosa de americanos. Suas ideias certamente sobreviverão à sua candidatura.

Contrariamente à percepção popular, Donald Trump não é um isolacionista. Ele quer fortalecer o Exército dos Estados Unidos e, em algumas ocasiões, sugeriu que poderá enviar forças terrestres para a Síria. Trump diz que “destroçará o Estado Islâmico”, talvez com armas nucleares, e autorizará a tortura de suspeitos terroristas. Ele não é contra o comércio. Afirma que deseja apenas erradicar o que, no seu entender, são acordos comerciais injustos firmados no passado e negociar novos em condições muito mais favoráveis para os Estados Unidos. O que permitiria ao país resgatar os US$ 19 trilhões de dívidas (em apenas oito anos) e recuperar os empregos perdidos no campo da manufatura.

Segundo ele, praticamente todos os aliados dos Estados Unidos são amigos debilitados que procuram tirar vantagem da generosidade ridícula de Washington. Ele critica alianças e instituições que, na sua opinião, reprimem qualquer ação dos Estados Unidos e implicam em muito gasto de dinheiro. Por exemplo, Trump insiste em dizer que a Otan deveria abandonar pelo menos França, Alemanha e outros países que gastam muito mais com seus Exércitos. Sob alguns aspectos, o seu enfoque unilateral é uma extensão lógica (embora radical) do intervencionismo da era de George W. Bush e do amplo uso de drones e sanções pelo governo de Barack Obama.

No entanto, Trump diz também que os Estados Unidos deveriam permitir que Japão, Coreia do Sul e mesmo a Arábia Saudita mantenham arsenais de armas nucleares e, assim, Washington renunciaria à responsabilidade pela segurança desses países.

É verdade que os aliados tradicionais dos Estados Unidos se defrontam com riscos muito maiores do que os americano. A Europa, obviamente, é muito mais vulnerável do que os EUA às turbulências no Oriente Médio e às ambições russas. A expansão da China e as ameaças da Coreia do Norte são muito mais preocupantes para o Japão e para a Coreia do Sul do que para os americanos.

O Estado Islâmico é uma ameaça muito maior para a Arábia Saudita do que para Washington e é verdade que os americanos não necessitam tanto do petróleo saudita como antes. Muitos hoje aceitam a tese enunciada por Trump (e pelo candidato democrata Bernie Sanders) de que o comércio vem matando os empregos. Hoje, poucos americanos acham que a globalização fortalece a economia do país.

Polarização. Donald Trump vive em um mundo de soma zero, em que os líderes da China “sugaram tanto dinheiro dos americanos que reconstruíram o seu país”. Ele divide o mundo entre vencedores e perdedores, bons e maus, trabalhadores e parasitas, uma tribo e outra. Tenho escrito nas últimas semanas que Trump privilegia a tese que põe os “Estados Unidos em primeiro lugar” na política externa. Não se trata de um cumprimento e me surpreende vê-lo adotar este rótulo com entusiasmo.

No entanto, os EUA necessitam muito de um debate aberto e responsável quanto a se e porque tais opiniões são certas ou erradas. Pode um acordo comercial que oferece mais benefícios econômicos para outros ser ainda um bom acordo? Há ocasiões em que é do interesse nacional dos EUA fazer mais de modo a permitir que os outros façam menos? Conseguirão os Estados Unidos permanecer um país seguro e próspero num mundo cada vez mais volátil?

É do interesse nacional dos Estados Unidos que a Marinha americana se empenhe mais do que qualquer outra para garantir a liberdade de navegação no mundo? Não está na hora de os líderes americanos insistirem para que seus aliados compartilhem mais os custos e riscos decorrentes da segurança coletiva? Os aliados dos Estados Unidos e os eleitores americanos merecem saber mais.

É insensato descartar as opiniões de Trump no campo da política externa, mesmo sabendo que ele nunca será presidente. No entanto, as questões e ressentimentos que ele canaliza precisam ser respondidas ou subsistirão. Infelizmente, este é um debate que os seus oponentes querem evitar. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

Ian Bremmer é presidente do Eurasia Group e autor do livro 'Superpower: Three Choices Por America's Role in the World'

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