A dramática busca de corpos em Pisco

Equipes concentram trabalhos nas ruínas do Hotel Embassy, onde funcionários e hóspedes podem estar soterrados

Roberto Lameirinhas, Pisco, Peru, O Estadao de S.Paulo

07 de agosto de 2022 | 00h00

Uma semana depois do terremoto que o converteu em montanhas de escombros, o cheiro da morte toma conta do centro de Pisco. Além da arapuca em que se transformou a Igreja de San Clemente, cujo desabamento soterrou um número estimado de 250 pessoas, o Hotel Embassy é agora o centro das preocupações das equipes de resgate.Os dois primeiros andares do edifício - que até quarta-feira tinha cinco - simplesmente desapareceram sob os três restantes. Ontem de manhã, um corpo, de um funcionário peruano da empresa argentina Techint, foi removido dos escombros. Mas não se sabe quantos cadáveres estão sepultados nas ruínas. Pelo odor de corpo em decomposição, sabe-se que há mais mortos ali. Pode ser um ou dezenas. Um caminhão frigorífico aguardava na praça central a chegada de mais corpos.As informações iniciais, segundo apurou o Estado na cidade, são de que pelo menos 15 funcionários e hóspedes do hotel - um três-estrelas de 70 apartamentos - desapareceram. "O hotel estava lotado", disse uma moradora de Pisco que acompanhava a remoção dos escombros. "Aqui ficavam turistas e gente que vinha de outras partes do país a trabalho. Pessoas a quem os habitantes daqui não procurariam." Ninguém sabe precisar em que momento, dos dois minutos de duração do terremoto de 8 graus na escala Richter, o hotel desabou. O dado, fundamental para que os especialistas estimem quanto tempo os hóspedes tiveram para deixar seus quartos, perdeu-se no terror que tomou conta de cada morador da cidade nos instantes mais agudos do tremor.Na segunda-feira à noite, máquinas pesadas começaram, finalmente, a trabalhar na demolição dos três últimos andares do prédio, o que permitiria a exploração dos escombros dos dois andares inferiores. A instabilidade das ruínas, que ameaçavam soterrar também os socorristas a cada nova réplica do tremor, é até agora o principal inimigo das equipes de resgate.A busca por cadáveres também é intensa em outros pontos da cidade. A maior parte dos mortos já foi enterrada no cemitério local - ao qual o terremoto também não poupou -, em cerimônias coletivas e covas abertas às dezenas por retroescavadeiras.Cerca de 30 mil desabrigados de Pisco, que tinha 130 mil habitantes, já estão nos dez campos montados pela Defesa Civil na cidade, mas muitos dos que perderam as casas ainda resistem a ir para as barracas. Eles temem que saqueadores roubem os poucos bens que possuíam e permanecem sob os escombros de suas casas. Somente 20% da eletricidade de Pisco foi restabelecida e a segurança é precária. Em Pisco, o presidente Alan García prometeu instalar nos acampamentos escolas provisórias para que as crianças voltem às aulas o mais rápido possível, como forma de amenizar o trauma que sofreram ao perder suas casas e alguns de seus parentes. O governo organizará frentes de trabalho com os próprios moradores de Pisco para a limpeza dos escombros. Prevê-se a contratação temporária de 5 mil homens, entre 20 e 55 anos, que receberão 14 sóis (cerca de US$ 5) por dia. Mil trabalhadores iniciaram ontem a retirada dos destroços no centro da cidade.O presidente García também advertiu que punirá severamente os que se aproveitarem das ajudas humanitárias. Ele fez o alerta após a denúncia de que uma funcionária da municipalidade de La Victoria, em Lima, levou para casa um lote de doações.Ainda ontem, o governo do Chile anunciou que seu embaixador no Peru, Cristián Barros, voltará hoje a Lima para coordenar o recebimento de 20 toneladas em ajuda. Ele havia sido convocado para consultas em Santiago por causa da impressão de um mapa peruano que, segundo o Chile, inclui águas territoriais chilenas como sendo peruanas.

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