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A dupla improvável

Cartagena é uma joia colonial do Caribe. Para Juan Manuel Santos, no entanto, o mar celeste da cidade colombiana deve ter parecido areia movediça. Recém-reeleito, o presidente colombiano foi para Cartagena na sexta-feira para um encontro reservado com seu par venezuelano, Nicolás Maduro.

Mac Margolis, O Estado de S.Paulo

03 de agosto de 2014 | 02h03

Foi um embate assimétrico. Com sua economia em marcha lenta e as negociações com a guerrilha empacadas, Santos tem muito em jogo. Um encontro com o venezuelano, cujo desprestígio cresce a cada dia, lhe acrescenta pouco. Ao contrário, Maduro, que amarga uma economia em farrapos, um governo desunido e a reputação internacional em queda livre, tinha tudo a ganhar.

Para lembrar o mandatário colombiano do que estaria em jogo, um punhado de manifestantes cobriu de pôsteres uma praça principal da cidade. Cada um com nome, idade e foto de um dos centenas de jovens venezuelanos presos durante os protestos antigoverno deste ano, cuja repressão violenta do governo chavista deixou 43 mortos.

Raposa que corteja sapo sabe o pântano que pisa. Político arrojado, afeito a riscos, Santos repetiu o gesto de quatro anos atrás, quando estendeu a mão para Hugo Chávez. O líder bolivariano era inimigo visceral de seu antecessor, Álvaro Uribe, que acusara o venezuelano de estimular as temidas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e sabotar a ofensiva colombiana contra o narcotráfico. A rusga terminou em guerra comercial, que fechou a fronteira entre os vizinhos.

Ao trocar o dedo em riste pela mão amiga, Santos, recém eleito, virou saco de pancadas do outrora padrinho, que passou a acusá-lo de líder fracote e vende-pátria. Santos levou a melhor, normalizou o comércio com Venezuela e desarmou a guerra fria entre Bogotá e os vizinhos bolivarianos, Equador e Bolívia, o que isolava Colômbia no seu próprio continente.

A disputa ajudou Santos a aumentar a aposta, abrindo no fim de 2012 uma nova tentativa de negociar a paz com as Farc, em solo cubano. A Venezuela tornou-se fiadora do processo, um arranjo improvável mas que ajuda a explicar o encontro de Cartagena. "Nenhum outro país tem a ascendência sobre as Farc", diz Michael Shifter, presidente do centro de estudos Inter-American Dialogue.

Tinha, aliás. Há alguns anos, a guerrilha não escondia sua afinidade com o projeto de Chávez e o comandante venezuelano correspondia ao afeto, cercando-se de assessores com ligações perigosas com a bandidagem. Destaque para o ex-chefe de inteligência militar e general Hugo Carvajal, preso na semana passada no Caribe por suspeita de envolvimento com as Farc. Por um triz, Carvajal escapou da extradição para os EUA.

Já Maduro, líder chavista por enxerto, não conta com a mesma simpatia entre os insurgentes e pouco pode influir no encrencado processo de paz em Cuba. Sobrou para a dupla inusitada de Cartagena uma pauta menos carismática, mas igualmente espinhosa: o caos econômico.

A raiz do problema é o desequilíbrio da política venezuelana, que congelou preços e subsidiou a gasolina. O resultado foi uma zona bandida que se estende ao longo da fronteira de 2 mil quilômetros, onde gangues desviam mercadorias baratas, de gasolina a queijo.

O combustível venezuelano, com o valor de venda à população estipulado em US$ 0,02 do por litro, sangra os cofres venezuelanos. O congelamento dos preços de carne, leite e medicamentos mina a indústria colombiana, que não consegue competir com o "dumping" bolivariano. De janeiro a julho, o valor do contrabando apreendido na fronteira entre Colômbia e Venezuela subiu 61%. Desmontar essa arapuca, que se apoia no populismo do chavismo, força motriz da engenhoca bolivariana, é um desafio para embaralhar a melhor diplomacia. Ainda mais para a dupla improvável de Cartagena.

* É colunista do 'Estado' e chefe da sucursal brasileira do portal de notícias 'Vocativ'

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