A economia de dependência do Egito

Indicadores refletem a vulnerabilidade dos egípcios, moradores de um dos países que mais precisam de ajuda externa no Oriente Médio

O Estado de S.Paulo

11 de agosto de 2013 | 10h49

O Egito escapou por um triz quando Estados do Golfo lhe enviaram uma ajuda de US$ 12 bilhões. O pacote deixou nítido até que ponto os incentivos políticos se tornaram o maior problema econômico do Cairo. Enquanto o país puder contar com recursos estrangeiros, seus líderes continuarão adiando as reformas econômicas.

Com o caixa cheio, os líderes atuais, colocados no poder pelo Exército, rejeitaram negociar com o FMI um empréstimo de US$ 4,8 bilhões que exigiria aumentos de impostos e cortes de subsídios. Ninguém em seu juízo perfeito assumiria o risco de uma reforma recebendo tantos recursos facilmente.

Cada vez que as reservas em moeda estrangeira chegam a um ponto crítico, os ricos vizinhos do Golfo vêm em socorro. Durante o governo de Morsi, o Qatar foi seu principal patrono. Após a derrubada de Morsi, Arábia Saudita, Kuwait e Emirados Árabes têm escorado as finanças do país.

Como resultado, o Egito tem conseguido evitar decisões difíceis e sustentar um regime que concede subsídios que consomem 25% dos gastos do governo e beneficiam moradores urbanos - estima-se que, nas cidades, mais de 90% dos subsídios da gasolina vão para os 40% mais ricos.

Apesar do breve governo da Irmandade Muçulmana, o equilíbrio do poder econômico mudou pouco desde Mubarak. Muitos dos velhos capitalistas com ligações com o governo foram afastados, mas as regras básicas do jogo continuam favorecendo a elite - que tem como membro principal o Exército.

A tecnologia transferida pelos EUA também é crucial no aumento do império econômico do Exército, que chega a 40% do PIB. Enquanto o Exército estiver no comando, as distorções provocadas por seus privilégios devem persistir.

O que o governo pode fazer, contudo, é tentar solucionar os problemas fiscais, substituindo o atual programa de subsídios por um mais progressista, de transferência de recursos direcionada e ampliar a rede fiscal para incluir contribuintes com conexões políticas.

Tais reformas ajudarão a romper as barreiras para a entrada de novas companhias, impulsionarão o desenvolvimento do setor privado, melhorando as perspectivas do país. Ironicamente, a economia egípcia tem se recuperado desde a eclosão dos protestos, em junho, que serviram de pretexto para o golpe militar. O preço do combustível e dos alimentos caiu, a libra egípcia se estabilizou e a bolsa teve ganhos substanciais.

Os líderes egípcios não devem considerar os avanços como indicadores de uma solidez econômica de longo prazo. Pelo contrário, eles refletem forças que estão fora do controle do Cairo e servem para enfatizar a vulnerabilidade do Egito como uma das economias do Oriente Médio mais dependentes de ajuda. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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