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A educação integral 

Das quatro horas diárias de aulas em escolas do Brasil, só duas são dedicadas ao ensino

Lourival Sant'Anna , O Estado de S.Paulo

24 de novembro de 2019 | 06h50

A Escola Partakilat, no interior do Quênia, tem 70 alunas e 80 alunos. Desses, 48 meninas e 52 meninos moram na escola. Uma parte dessas garotas foi salva pela escola da mutilação genital, uma prática ilegal no Quênia e em outros países da África, mas que ainda é observada em muitas famílias, sobretudo na zona rural.

Situada na reserva Maasai Mara, a escola não tem dormitórios. As crianças passam a noite nas salas de aula – sete de alvenaria e três de adobe. As aulas começam às 8 horas e vão até as 12h40. Depois de uma pausa para o almoço, retomam às 14 horas e se encerram às 17 horas. As crianças internas tomam banho e, às 19 horas, vão fazer as tarefas. 

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Daniel Rokoi, diretor da escola, me disse que às vezes falta comida e precisa dispensar os alunos mais cedo. Os maasai são criadores de gado e de cabras. “Mas para um maasai vender um animal é como morrer”, observa Rokoi, explicando a dificuldade de conseguir doações das famílias. 

Em meio a tanta precariedade, as crianças estão protegidas na escola. Aquelas que estão sob risco de serem mutiladas ou que foram abusadas sexualmente não voltam para casa. Essa experiência extrema me remeteu a tantas escolas que conheci em lugares tão diferentes como o Afeganistão, a Geórgia e o Líbano em meio à guerra.

Acredito que essas crianças só foram acolhidas por causa de uma visão do papel da escola. Essa visão está intimamente associada à cultura do ensino integral. Fiz reportagens em mais de 70 países, e frequentemente visito escolas. Só neste ano, estive em escolas nas Coreias do Norte e do Sul, Etiópia, Zâmbia, Botsuana e Seychelles, além do Quênia.

Na outra ponta do estágio de desenvolvimento, estive em junho na Escola Média de Robótica de Seul. Lá as aulas vão das 8h20 às 16h10. Depois das aulas, os jovens continuam na escola, para atividades extracurriculares, como preparação para exames locais e nacionais que dão certificados e assim enriquecem os currículos. 

Os alunos vão normalmente para casa às 19 horas. A não ser quando estão trabalhando em seus protótipos para competir nas diversas feiras de robótica. Aí ficam até 22 horas. Dos alunos (são 520 nos três anos), 98% arranjam emprego antes de se formar. Os que não moram em Seul ficam alojados na escola, e só voltam para casa nos fins de semana ou mesmo nas férias, no caso dos que têm casas mais distantes.

Na maior parte dos países que eu conheço, o ensino integral é a regra; escolas de meio período são exceção. Na América do Sul, particularmente no Brasil, é o contrário.

Uma coisa que sempre me intrigou foi observar por que os brasileiros não aprendem inglês no curso regular na escola. Noutros países, o normal é as pessoas que cursaram o fundamental e o médio falarem inglês – com exceção de partes da Ásia. Mesmo em países africanos que não foram colonizados pela Inglaterra, e que adotaram mais recentemente o ensino do inglês nas escolas, como Marrocos, Líbia, Ruanda, Etiópia e Seychelles, os jovens são fluentes em inglês.

Olhando para a colocação do Brasil no ranking do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), que no ano passado ficou em 63.º em ciências, leitura e matemática, de 70 países examinados, chego à conclusão de que não é só inglês. Os brasileiros não aprendem nada na escola. Mas normalmente a gente não testa os outros conhecimentos das pessoas. O inglês é só a face visível de um sistema disfuncional.

Estudo do Banco Mundial constatou que, em média, das supostas quatro horas diárias de aulas nas escolas brasileiras, apenas duas são efetivamente dedicadas ao ensino. Ou seja, o ensino no Brasil não é nem sequer de meio período. É metade disso. 

Estudos do próprio Banco Mundial, até mesmo no Brasil, mostram que não basta ter ensino integral. Certamente não é uma condição suficiente. Mas deveria ser encarada como necessária.

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