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Gilles Lapouge
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A eficácia dos drones

PARIS - Há três semanas, em 23 de outubro, o primeiro-ministro paquistanês, Nawaz Sharif, ao ser recebido em Washington, pedia ao presidente americano, Barack Obama, para pôr fim a sua paixão pelos drones, esses aviões teleguiados que matam com uma precisão matemática os terroristas islâmicos - e quem quer que esteja em seu caminho ou seja confundido com eles.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

13 de novembro de 2013 | 02h06

Alguns dias depois, um drone dava um novo tiro certeiro e matava, no Paquistão, o terrível chefe do Taleban paquistanês, Hakimullah Mehsud.

Conclui-se daí que Obama não se dobrou às súplicas do premiê paquistanês.

É bem verdade que a vítima do ataque com drone não era muito inclinado à compaixão. Este sujeito, que operava no noroeste pashtun do Paquistão, era uma criatura sinistra. Ele detonava bombas em mercados e mesquitas, assassinava elementos das forças da ordem, eliminava seus rivais "heréticos" (isto é, xiitas e sufis) porque defendia um Islã sunita wahabita (a corrente que defende o retorno da civilização à "pureza" dos primórdios do islamismo, no século 7.°, quando foi fundado pelo Profeta Maomé).

Viva o drone, portanto, máquina de uma eficácia monstruosa que abateu um homem que ameaçava o frágil equilíbrio do Paquistão!

Infelizmente, o Taleban paquistanês não ficou acéfalo por muito tempo. Oito dias após a morte de Mehsud, era nomeado seu sucessor. E o sucessor não é brincadeira.

Trata-se do clérigo Maulana Fazlullah, conhecido não só pelo rosto envolvido em farta barba e o uso de um grande turbante negro, mas também por suas façanhas. Foi ele que, em 2012, tentou assassinar a jovem Malala Yousafzai, que fazia campanha pela escolarização de meninas no norte do Paquistão.

Orador inspirado, Fazlullah mandou incendiar lojas de discos, ordenou que escolares usassem a burca e proibiu barbeiros de rasparem o cabelo de seus clientes.

Antes, de 2007 a 2009, existia uma milícia regular chamada Brigada dos Mártires de Al-Aqsa que atacava delegacias de polícia. Em 2009, o Exército regular paquistanês retomou a região do Vale do Swat e o mulá Fazlullah fugiu para o vizinho Afeganistão, de onde lança seus ataques assassinos no Paquistão.

Assim, a proeza do drone teria tido o seguinte resultado: um homem sanguinário e mortífero é sucedido por outro ainda mais sombrio, mais sanguinário e mais sinistro, cuja obsessão é fazer imperar em seu país a sharia, esta justiça com base na lei islâmica que corta mãos e apedreja até a morte mulheres adúlteras ou moças despudoradas.

E isso não é tudo. Até agora, o Taleban paquistanês estava dividido em dois ramos rivais. Mas o mulá Fazlullah foi nomeado chefe desses dois ramos ao mesmo tempo. Isto é, o terrorismo reconstrói sua unidade e por isso vai ter eficácia bem maior do que tinha.

Há alguns meses, o poder legal do primeiro-ministro paquistanês, Narwaz Sharif, multiplicava as aberturas para assinar um cessar-fogo com o Taleban nas zonas tribais. Progressos tinham sido alcançados. A morte de Mehsud e a ascensão ao poder do mulá Fazlullah fazem caducar essas tentativas.

O governo fraco de Sharif não parece estar à altura de intimidar o temível Fazlullah. E os americanos - que já não eram muito populares no Paquistão, mesmo antes de um de seus drones matar Hakimullah Mehsud -, são hoje denunciados como o principal fator de instabilidade do país.

Conclusão: o drone americano deu um tiro certeiro, é fato, mas com que finalidade?

TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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