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A eleição americana do pós-guerra

A eleição presidencial americana de 2008 mudou substancialmente de rumo, mas não por causa dos acontecimentos em Iowa e New Hampshire. Foi por acontecimentos fora dos EUA.Em Washington, a Estimativa de Inteligência Nacional foi divulgada, sugerindo que o próximo presidente não enfrentará um confronto nuclear iminente com o Irã. No Iraque, o reforço de tropas americanas levou a um aumento da estabilidade. No Paquistão, as ruas não explodiram. No Oriente Médio, os árabes e palestinos chegaram a uma espécie de processo de paz. Na Venezuela, um referendo abalou o presidente Hugo Chávez.O mundo ainda tem seus problemas, mas já não parece estar a caminho de alguma crise de grandes proporções. A atmosfera de medo e conflito, ao menos temporariamente, parece ter melhorado. Com essas mudanças, a eleição de 2008 está começando a parecer uma eleição de pós-guerra. Os eleitores americanos estão começando a sair dos abrigos construídos após o 11 de Setembro e buscam uma nova normalidade. Eles estão à procura de algo inteiramente diferente.A mudança do sentimento público tem se evidenciado nas sondagens de opinião. Antes da eleição de 2004, metade dos eleitores citava o terrorismo como sua principal preocupação. Mas segundo uma pesquisa Wall Street Journal/NBC o assunto continua sendo prioridade para apenas um terço. Como observou Peter Beinart, um bolsista sênior do Conselho de Relações Exteriores, o número de habitantes de New Hampshire que cita o Iraque como sua principal preocupação caiu 14 pontos entre republicanos e 16 pontos entre democratas.A virada também ficou evidente nas assembléias realizadas pelos candidatos em várias cidades. O número de perguntas do público sobre o Iraque caiu vertiginosamente. Os republicanos não querem falar do Iraque porque estão humilhados pela condução da guerra, e os democratas não querem falar dela porque estavam errados sobre a escalada. Em lugar disso, outras questões saltaram para a frente da consciência pública: mormonismo, hipotecas e a importância cósmica de Oprah Winfrey.Os efeitos da mudança de clima estão apenas começando a se fazer sentir. Se os eleitores da disputa presidencial de 2008 forem como os das votações passadas, então 20% ou 30% deles provavelmente decidirão seu voto nos três dias finais da campanha, e outros 20% ou 30% tomarão sua decisão nas duas últimas semanas.Tudo que você esteve lendo sobre a corrida no último ano é trivial em comparação com esta questão: Qual candidatura se encaixa melhor no estado de espírito dos últimos dias? A primeira característica óbvia de uma eleição de pós-guerra é que as questões domésticas pesarão mais. Os dois candidatos que vêm crescendo, o democrata Barack Obama e o republicano Mike Huckabee, não têm quase nenhuma experiência em política externa.Contudo, a maior diferença entre uma eleição em tempo de guerra e uma eleição de pós-guerra é a ocorrência de uma mudança de valores. Em tempo de guerra, características de liderança como coragem, constância e impiedade são valorizadas. Os eleitores mostram-se dispostos a votar em candidatos que os desagradam desde que os vejam como duros e eficientes (Hillary Clinton, Rudy Giuliani).Numa eleição de pós-guerra as coisas são diferentes. Quando os pesquisadores do Wall Street Journal/NBC perguntavam aos eleitores que qualidades eles queriam ver no novo líder, as três principais escolhas foram: a capacidade de trabalhar bem com líderes de outros países; ter valores morais e familiares fortes; e trazer unidade ao país. Essas são qualidades cooperativas, não guerreiras. Elas requerem uma boa capacidade de escutar, de abertura e de habilidade de conciliação.É claro que os eleitores não estão exaustos somente da guerra. Eles estão exaustos da guerra em torno da guerra. No lado democrata, Obama captou com precisão esse sentimento durante num discurso algumas semanas atrás. Ele pediu para os eleitores rejeitarem a política do medo, do partidarismo e dos manuais. Ele pediu que eles votassem com base em seus desejos para uma nova era de unidade nacional. A conseqüência foi que Obama saltou na frente em Iowa e aproximou-se de Hillary em New Hampshire.A tragédia da corrida republicana é que Mike Romney e Giuliani, que poderiam ter oferecido um novo tipo de republicanismo, optaram por concorrer como republicanos convencionais da era Bush. Agora, Huckabee emergiu como uma alternativa. Huckabee é socialmente conservador, mas não um guerreiro da cultura partidária. Ele é um republicano governamental pragmático, não uma criatura rígida dos grupos de interesse do establishment de Washington.Minha aposta é que essa corrida ainda terá mais algumas voltas e reviravoltas. Algo terrível poderá acontecer no mundo, o que levaria a mentalidade belicosa a voltar com força considerável. Obama e Huckabee poderiam vencer Clinton e Romney, respectivamente, nos primeiros Estados, para depois caírem vítimas de suas próprias fraquezas mais adiante. Podem rir, mas essa coisa ainda poderá cair no colo de Fred Thompson ou John McCain, Chris Dodd ou Joe Biden.A questão principal é a seguinte: dinheiro e organização pesam menos que ficar em sintonia com a mudança do estado de espírito. Em 1945, o então primeiro-ministro britânico ,Winston Churchill, tinha vantagens formidáveis sobre Clement Atlee. Mas quando um público se afasta de uma mentalidade de guerra para uma mentalidade de paz, ele o faz com uma vingança - ainda que, no presente caso, nenhum armistício tenha sido declarado.TRADUÇÃO DE CELSO MAURO PACIORNIK*David Brooks é colunista do jornal ?The New York Times?

David Brooks, O Estadao de S.Paulo

15 de dezembro de 2007 | 00h00

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