A embriaguez de vendedor de Sarkozy

O chanceler francês, Bernard Kouchner, almoçou segunda-feira com "seu caro amigo" Nicolás Maduro, ministro do Poder Popular para as Relações Exteriores da Venezuela. Um almoço muito proveitoso. Para a imprensa, Kouchner, satisfeito, enumerou uma longa lista de projetos - educação, cultura, telecomunicações, automóveis. Nessa ladainha, um item fez mais barulho que os demais: os dois países vislumbram uma cooperação no campo da energia nuclear.Nada surpreendente. O presidente francês, Nicolas Sarkozy, adora vender usinas nucleares. Ele não consegue fazer uma viagem ao exterior sem colocar na bagagem algumas "centrais", umas clássicas, outras de terceira geração, as EPRs, mais potentes, mais seguras e menos poluentes.A França possui o melhor know-how do mundo e deve essa excelência ao general Charles De Gaulle, que, sempre visionário, apostou pesado na carta nuclear.Hoje, com 54 centrais, a energia nuclear fornece 78% da eletricidade francesa. As encomendas fluem. Na lista de conquistas de Sarkozy constam duas, talvez três, EPRs em construção na Finlândia e duas EPRs na China. Nessa semana, além do projeto de cooperação com a Venezuela, a França assinou protocolos com a Índia para a qual serão fornecidos dois reatores EPRs no modelo de contrato já assinado com a China, num valor de US$ 8 bilhões. A cooperação com Finlândia, Índia, não causa objeções. Mas, em sua embriaguez de vendedor, Sarkozy não faz distinção entre os países responsáveis e os suspeitos. É fato que, diante do Irã, que certamente passaria da energia nuclear civil para a militar, Sarkozy é bastante claro e intransigente, como os EUA e Israel. Em compensação, ele não teme se envolver com alguns países de aparência menos inquietante. O caso mais chocante é a Líbia. O coronel Muamar Kadafi que foi, por muito tempo, um dos terroristas mais cruéis do planeta, teve o prazer de assinar, um ano atrás, um belo acordo com a França. O francês justificou dizendo que Kadafi afirmou não ser mais um terrorista. Ótimo. Mas como acreditar na palavra de alguém que mandou explodir em vôo ao menos dois aviões no passado? O segundo argumento de Sarkozy: "Se dissermos que o mundo árabe não é suficientemente responsável para a energia nuclear civil, isso será humilhante e abrirá uma guerra de civilizações." Esse argumento permitiu que Sarkozy oferecesse suas centrais também a outros países africanos ou asiáticos, como o Marrocos, país bastante confiável, ou a Síria, país ultraperigoso.E a Venezuela? O ministro insistiu no caráter exclusivamente civil da cooperação. O argumento é particularmente ardiloso, pois a passagem da energia nuclear civil para a militar não está fora de alcance. Sarkozy sabe disso melhor que ninguém.Com respeito a Chávez, Kouchner apresentou um outro argumento: a amizade França-Venezuela. "Seis reféns detidos pelas Farc na Colômbia foram libertados graças a nossos amigos venezuelanos, o que provocou uma tomada de consciência continental e internacional... E nós tivemos a felicidade de ver também a libertação de Ingrid Betancourt." Outro motivo de preocupação é que Sarkozy dispersa suas centrais por países que não estão nas boas graças dos EUA. Esse é o caso evidente de Caracas, onde Chávez vive "calçando as botas" de Fidel Castro e insultando os EUA e seu presidente. Será que a França estaria tentando aproveitar-se do lamentável fim de reinado de Bush para ocupar espaços deixados "em repouso" pela diplomacia americana? Esses temores são rejeitados com indignação. A França é a França. Ela tem sua diplomacia. Ela não depende de ninguém. Sua diplomacia não copia a de Washington, mas, ela é uma aliada resoluta, inabalável, dos EUA. Talvez seja até a maior aliada dos EUA, após o afastamento de Tony Blair. Nada mais exato. Enquanto Jacques Chirac suportava George W. Bush e havia rompido a solidariedade atlântica denunciando ruidosa e talentosamente a guerra do Iraque, Sarkozy restabeleceu relações de confiança quase fraternais com Bush. Ele é o apoio mais sólido de Bush na guerra do Afeganistão e está disposto a fazer a França voltar à Otan 60 anos depois que De Gaulle, um antiamericano passional, a fez sair da Aliança Atlântica. Essa é, aliás, uma das censuras que a oposição socialista faz a Sarkozy. Ela o descreve como "o cãozinho de estimação de Bush". É uma acusação injusta e estúpida. Sarkozy seguramente não é o "cãozinho" dos EUA. Ele é simplesmente seu aliado mais resoluto. Ao menos até agora. * Gilles Lapouge é correspondente em Paris

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