A empatia deve servir como caminho para o civismo autêntico

Cultura pode atuar como guia mais eficiente que a política

Gregory Rodríguez, O Estado de S.Paulo

11 Setembro 2011 | 00h00

LOS ANGELES TIMES

A política está tornando os americanos estúpidos e mesquinhos. Está transformando um povo generoso e aberto em uma gente enfadonha, obtusa, superficial, na defensiva. Especialistas dizem que a melhor resposta a essa situação desagradável - que envolve desde comentários repugnantes em quadros de avisos até mentiras de políticos que se distinguem pelo fisiologismo - é atrair mais pessoas engajadas nos movimentos cívicos. Segundo essa lógica, a moderação das multidões deve abrandar o fanatismo dos radicais. Mas eu não acredito nisso. A solução para o espírito corrosivo da política americana não é mais a política.

Há poucas semanas, participei de uma reunião coordenada por Eric Liu, ex-assessor de política interna de Bill Clinton na Casa Branca. Um pequeno grupo discutiu como "reviver e reinventar o civismo" nos EUA. Nossas intenções eram boas, mas, horas depois, ainda não tínhamos chegado a um acordo sobre a definição - ou sobre o propósito definitivo - do civismo. Para alguns, ele se resumia simplesmente em ensinar como o governo deve funcionar. Para outros, dizia respeito apenas à civilidade. E, para um terceiro grupo, no qual me incluí, era algo mais significativo e exigente.

Kristen Cambell, do Conselho Nacional de Cidadania, uma organização sem fins lucrativos para a promoção do compromisso cívico, também participava do último grupo. "O compromisso cívico busca captar e explorar a empatia. Essencialmente, procuramos encontrar pessoas que se preocupam com seus vizinhos, com suas comunidades e com seu país", disse ela.

À primeira vista, o termo empatia lembra vagamente associações religiosas, algo muito além do alcance das organizações cívicas. Mas, se deixarmos de lado as recordações da escola dominical, encontraremos um conceito eminentemente útil para a vida pública secular.

Em The Science of Evil, o psiquiatra Simon Baron-Cohen define a empatia sem a visão espiritual. Ele a define como consciência cívica, a capacidade do indivíduo de levar em conta os sentimentos do outro. A crueldade humana, ou simplesmente a indelicadeza, ocorre quando os indivíduos só se preocupam com o interesse próprio e não se identificam com os pensamentos ou sentimentos do outro, e não respondem ao próximo. Traduzindo na linguagem comum, não existem soluções sem uma consciência cívica, somente impasses entre objetivos concorrentes. O bom civismo não pode existir sem um compromisso moral, sem atividades que promovam a compreensão e a empatia.

Estímulo. Para transformar o diálogo público, hoje paralisado nos EUA, precisamos encontrar modos de estimular a empatia em ampla escala. A História mostrou que uma democracia com suficiente engajamento moral pode prosperar mesmo quando o engajamento político é baixo. Mas uma democracia sem um compromisso moral suficiente pode facilmente dissolver-se mesmo quando o compromisso político é grande.

Então, o que podemos fazer para criar um compromisso moral? Em geral, é em casa que as pessoas aprendem as lições morais, mas toda sociedade madura também dispõe de meios para ajudar a construir o que o poeta Matthew Arnold chamou de "indivíduos melhores". Arnold viveu na Grã-Bretanha no século 19, em uma era de certezas políticas igualmente exageradas, e pregou que, para sobreviver à cacofonia, seus compatriotas precisavam estabelecer um compromisso com a cultura "que não tente atrair para essa ou aquela seita". O poeta queria que as pessoas usassem as ideias, livres do convencimento da política, "para que elas lhes alimentem, não para que elas lhes escravizem".

Arnold considerava a busca da cultura igual à busca do que há de melhor no ser humano. Talvez a sociedade o ouvisse. Na Grã-Bretanha do fim da era vitoriana havia uma profusão de museus, teatros, galerias e salas de concertos.

Hoje, a ideia de que a aquisição da cultura contribui para a formação do caráter moral é considerada antiquada - até mesmo elitista. Mas como diz o filósofo britânico John Armstrong em seu novo livro, In Search of Civilization, a verdadeira função da arte é "moldar e orientar nossos anseios, mostrar-nos o que é nobre e importante".

Enquanto o estardalhaço da política em geral nos empurra de um lado para o outro, a grande arte e as grandes ideias podem nos elevar acima da banalidade e nos ensinar a empatia.

Sem dúvidas, hoje há uma crise de civismo, mas ela é o produto de um profundo descompasso entre nosso compromisso político e nosso compromisso moral. A democracia é grande, mas os cidadãos ainda precisam de inspiração e empatia para fazê-la florescer. Se quisermos realmente promover o civismo, talvez devamos deixar o salão da assembleia municipal e frequentar a sala de concertos. Matthew Arnold, pelo menos, aprovaria. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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