A encruzilhada da eleição americana

Campanha mostra que, desta vez, não há uma corrida pelo eleitor moderado e independente

O Estado de S.Paulo

23 de setembro de 2012 | 03h06

Artigo

Agora que a campanha presidencial americana entra na etapa final, os telespectadores de Estados ainda indefinidos recebem uma enxurrada de anúncios políticos agressivos. Os republicanos buscam eleitores explorando os fracassos supostamente arrasadores de um governo de Barack Obama empenhado em levar os EUA às raias de um socialismo europeu altamente endividado. Os democratas, por seu lado, farão advertências contra as posições extremistas do desafiante Mitt Romney e de Paul Ryan, o discípulo de Ayn Rand que ele escolheu para vice-presidente na sua chapa.

Pesquisas mostram uma eleição que poderia ser muito parelha, tanto no voto popular como no Colégio Eleitoral, mas neste momento Obama parece ter uma modesta e crescente vantagem.

Cenários extremos contemplam um empate por 269 no Colégio Eleitoral, em novembro, um desfecho que é remotamente possível, mas improvável. Se ele ocorrer, a eleição poderá ser resolvida na Câmara de Deputados. Como essa Câmara quase certamente permanecerá em mãos republicanas, isso ungiria Romney presidente.

Por outro lado, a convenção do Partido Democrata, com destaque para o agressivo discurso do ex-presidente Bill Clinton, martelou na tecla das posições fundamentalistas defendidas pelos republicanos, e da questão maior da descida desse partido à irracionalidade econômica e à intolerância social. Foi uma medida inteligente porque somente uma minoria apoia a privatização do Medicare, o caráter criminoso do aborto em qualquer circunstância, a desregulação do setor financeiro, o corte de programas destinados a tornar a educação superior mais acessível, obrigar 11 milhões de residentes sem documentos a se "autodeportarem" ou conceder ainda mais cortes de impostos aos americanos mais ricos.

Uma característica incomum desta campanha é que nenhum dos partidos está se deslocando sistematicamente para o centro na tentativa de atrair moderados indecisos. O Partido Republicano pendeu de tal forma para a direita que os eleitores centristas só serão atraídos para ele se acharem Obama repugnante. É por isso que a campanha de Romney insiste em sugerir que um segundo mandato de Obama traria uma degringolada ao estilo grego, uma catástrofe econômica provocada pela dívida e o fim da supremacia americana nos assuntos internacionais.

Mais do que em qualquer eleição americana anterior, esta campanha será travada em torno dos esforços para influenciar no comparecimento de eleitores cujas preferências já estão estabelecidas. Os democratas precisam elevar ao máximo o entusiasmo dos elementos centrais da coalizão que levou Obama ao poder em 2008: os jovens, os não brancos, e os com educação superior, em particular as mulheres nessa condição.

Apesar de ser improvável que esses apoiadores centrais de Obama mudem seu voto para Romney, sua frustração com o desempenho do governo pode levá-los a ficar em casa. Por isso, o Partido Democrata elaborou uma sofisticada campanha microorientada, com a intenção de reacender o entusiasmo em suas fileiras.

Por seu lado, quanto mais o campo de Romney puder fomentar o desencanto entre esses eleitores - enfatizando promessas não cumpridas e uma economia ainda lenta -, menos votos ele precisará para vencer.

A campanha de Romney e seus emissários nos legislativos estaduais estão mobilizando todos os meios para aprovar requisitos rígidos de identificação e encurtamento dos horários de votação na tentativa de reduzir o comparecimento de eleitores de baixa renda, jovens, idosos e minorias em Estados com situação eleitoral equilibrada.

A tentativa de afastar eleitores das urnas não é nova. Tem sido um traço recorrente das estratégias eleitorais americanas desde o fim da Guerra Civil há mais de um século e meio. Mas essa repetição particularmente gritante de uma estratégia de supressão de eleitores atrai a merecida atenção do Departamento de Justiça. Alguns recursos legais interpostos para sustentar violações da Lei sobre Direitos dos Votantes de 1965 têm o potencial de comprometer a legitimidade do resultado.

Se a eleição for livre e limpa, Obama provavelmente prevalecerá. Atualmente, 50 milhões de latinos vivem nos EUA, e esse número está crescendo rapidamente. Uma plataforma republicana que pede que 11 milhões deles se "autodeportem" é alienante para esse segmento cada vez mais crucial do eleitorado.

Especialistas em pesquisas sugerem que a população latina em sua maioria operária provavelmente não reagirá favoravelmente a políticas econômicas que propõem concentrações de riqueza ainda maiores numa sociedade que já exibe níveis de desigualdade maiores do que qualquer outro país industrial avançado do mundo. E os eleitores latinos, mais do que os brancos de origem europeia, votam segundo seus interesses econômicos.

Da mesma forma, ao recusar alijar extremistas determinados a bloquear o acesso à contracepção, impedir o ensino da evolução e privar vítimas de estupro do acesso a serviços de aborto, o Partido Republicano corre o risco de alargar ainda mais o abismo de gênero, responsável pelo fato de os democratas receberem quase 10% mais votos de mulheres que de homens.

Portanto, a menos que haja uma transformação improvável da oposição republicana, os abismos de etnia e gênero devem aumentar, tornando cada vez mais implausíveis as maiorias republicanas. Podemos olhar hoje a eleição de 2008 como aquela que introduziu um período prolongado de predomínio de um partido - perspectiva mais atraente neste momento do que o fel que emana das propagandas de 30 segundos na televisão. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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