Josh Haner / The New York Times
Josh Haner / The New York Times

A encruzilhada do Partido Democrata diante de Trump

Oposição ao presidente não consegue encontrar forma de adaptar seu discurso em relação a costumes e identidade nacional

FAREED ZAKARIA / THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

03 Julho 2017 | 05h00

O Partido Democrata reagiu à série de derrotas eleitorais recentes concluindo, mais uma vez, que precisa de uma mensagem econômica melhor. O único desacordo no partido é quão afiada e esquerdista essa mensagem deve ser. Mas está cada vez mais claro que o problema para os democratas tem pouco a ver com economia e muito mais com uma penca de assuntos que eles preferem deixar de lado, referentes a cultura, costumes sociais e identidade nacional.

A agenda econômica democrata é bastante popular junto ao público. Mais pessoas preferem a visão do partido à republicana sobre impostos, redução de pobreza, benefícios governamentais e mesmo mudanças climáticas e política energética. Segundo pesquisa recente, três em cada quatro pessoas apoiam a elevação do salário mínimo e oito em cada dez são a favor da ampliação do programa de ajuda nutricional suplementar. Chama a atenção que cada uma dessas propostas tenha também apoio da maioria dos republicanos.

O Fundo para a Democracia, fundação bipartidária, promoveu um estudo abrangente na eleição presidencial de 2016, e um dos pesquisadores, Lee Drutman, divulgou a primeira conclusão-chave do trabalho: “O conflito básico entre os dois partidos é sobre problemas de identidade nacional, raça e moral”. Ao enfocar pessoas que votaram em Barack Obama em 2012 e mudaram para Donald Trump em 2016, Drutman descobriu que elas são muito próximas do Partido Democrata em assuntos econômicos, mas pendem sensivelmente para a direita quando se fala em imigrantes, negros e muçulmanos.

O Instituto Público de Pesquisas sobre Religião e a revista The Atlantic também fizeram estudo para detectar o que levou eleitores da classe operária a votar em Trump. A identificação como republicano e a lealdade partidária foram os motivos mais fortes. Mas a conclusão final é que as maiores motivações foram o medo da alienação cultural e o apoio à deportação de imigrantes ilegais. Aqueles que se sentiam pobres ou quase pobres foram ligeiramente mais propensos a votar em Hillary Clinton.

É preciso considerar quanto o Partido Democrata mudou nos últimos 25 anos. O partido de Bill Clinton insistia em se mostrar moderado em temas sociais. Ficava no meio-termo sobre imigração e era cautelosamente progressista em assuntos como direitos dos gays. Eventualmente, os democratas penderam decididamente para a esquerda em algumas dessas áreas. Em outras, como imigração, eles o fizeram em grande parte para cortejar um crescente segmento de eleitores. Mas, num sentido mais amplo, cultural, o Partido Democrata voltou-se para a esquerda porque se tornou um partido dominado por profissionais urbanos, de nível superior, cujos pontos de vista sociais e culturais espelham naturalmente essa realidade.

A defesa de minorias e a celebração da diversidade são genuínas e louváveis, mas com elas os democratas criaram um grande vácuo em relação a uma considerável faixa rural e suburbana. Trata-se de um vazio cultural que não pode ser preenchido apenas com a defesa de políticas mais ágeis de benefícios fiscais, a reciclagem profissional e a educação pré-escolar. Os democratas têm de falar sobre a identidade nacional de um modo que destaque os elementos comuns que forjam essa identidade, não os pontos que a dividem. Políticas nessas áreas são importantes. 

O partido deveria assumir sobre a imigração uma posição menos absolutista e admitir tanto os custos culturais quanto econômicos da imigração em grande escala. Em alguns pontos envolvendo orientação sexual ele pode e deve afirmar seus princípios, sem fazer concessões. Mas talvez pudesse mostrar mais compreensão com os segmentos do país que discordem de sua abordagem. 

A Califórnia recentemente proibiu viagens patrocinadas pelo governo estadual a oito Estados cujas leis – na visão californiana – discriminam a comunidade LGBT. A Califórnia, no entanto, não vê problemas em pagar viagens de funcionários a santuários de tolerância como China, Catar e Rússia.

Quanto mais estudo esse assunto, mais me convenço de que as pessoas votam principalmente com base numa ligação emocional com o candidato. Os democratas precisam reconhecer isso. Devem, é claro, continuar insistindo em seus ideais profundos, mas ao mesmo tempo devem deixar claro a uma grande faixa de americanos que compreendem e respeitam seu modo de viver, seus valores, seu mérito. É uma investida mais difícil do que continuar pressionando pelo aumento do salário mínimo. Mas é nesse campo cultural que as políticas hoje se cruzam. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

 

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