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Retorno do Taleban ao poder deve fortalecer grupos mais radicais no Afeganistão

Se grupo se mostrar 'moderado', membros mais radicais podem se juntar a grupos terroristas como o ISIS-K

Carlos Gustavo Poggio*, O Estado de S.Paulo

26 de agosto de 2021 | 20h00

O atentado terrorista que deixou dezenas de mortos, incluindo militares americanos, na região do aeroporto de Cabul, é a mais clara evidência do que o futuro próximo reserva ao Afeganistão. Um longo histórico de instabilidade política, invasões estrangeiras, particularidades geográficas e diversidade étnica são alguns dos ingredientes que fazem do Afeganistão um ambiente propício para o abrigo de diversos grupos terroristas, com alguns deles, como a Al Qaeda, possuindo ramificações de caráter global. Com a volta do Taleban ao poder seguindo a desastrada retirada americana do país, esses grupos devem ganhar nova força.

É importante reforçar que o Taleban não é designado como um grupo terrorista pelos Estados Unidos. Na verdade, é o ramo paquistanês do grupo TTP, formado em 2007, que é classificado como uma organização terrorista pelo Departamento de Estado americano. É impossível compreender a relação do Taleban com grupos terroristas sem levar em consideração a complexa relação com o Paquistão.

No Afeganistão, o Taleban é um grupo fundamentalista e nacionalista islâmico, com origem nos anos 1980, e que chegou a governar o país por apenas quatro anos, entre 1996 e 2001. “Governar o Afeganistão” talvez seja um exagero, dado que o grupo nunca teve controle total sobre o país e jamais constituiu exatamente um governo com algum grau de institucionalização mais sólida.

Durante a sua história, o Taleban tem interagido com uma série de grupos terroristas em diferentes níveis. Desses, o mais conhecido é a Al Qaeda, cuja relação com o Taleban remonta aos anos 1990, na época em que o grupo estava no poder, e que fez com que o país fosse atacado pelos Estados Unidos após o 11 de setembro. Uma das principais ligações atuais do Taleban com a Al Qaeda se dá a partir da chamada rede Haqqnai, uma das vertentes mais radicais do grupo afegão.

Apesar de ser oficialmente parte do Taleban, a rede Haqqani possui um elevado grau de autonomia organizacional e é considerada a responsável pelos mais violentos ataques às tropas americanas durante a guerra no Afeganistão. Liderado por Sirajuddin Haqqani, filho do fundador do grupo, a rede Haqqani tem estreitado suas relações com outros grupos terroristas como a Al Qaeda e o TTP.

Os ataques dessa quinta-feira na região do aeroporto de Cabul, entretanto, aparentemente não foram perpetrados por nenhum desses grupos, mas por outra organização terrorista conhecida como ISIS-K, uma filial afegã do Estado Islâmico (que possui outras filiais em diversos países) criada em 2015. Muitos dos membros do ISIS-K são ex-militantes do TTP que escaparam da repressão do governo paquistanês.

A relação do ISIS-K com o Taleban é complexa, e ambos já entraram em conflito por questões de controle de território e diferenças políticas. Há indícios de que após ter controlado Cabul, o Taleban executou um líder do ISIS-K que estava preso. Até o atentado dessa quinta-feira, o governo americano pensava que o grupo estava bastante enfraquecido, com diversos de seus líderes tendo sido mortos ou capturados durante o tempo em que os Estados Unidos permaneceram no país. Agora parece claro que o grupo não apenas não está derrotado, como deve se fortalecer.

A encruzilhada em que o Taleban se encontra atualmente é que se de fato o grupo se mostrar mais “moderado” na medida em que tem a responsabilidade de governar o país, é possível que membros mais radicais abandonem o Taleban para se juntar a grupos terroristas como o ISIS-K. Reduzir a complexidade da situação no Afeganistão a um Taleban supostamente homogêneo controlando o país a partir de agora é uma simplificação que nos leva a perder de vista outros atores importantes da conjuntura atual.

* É professor de Relações Internacionais da FAAP (Faculdade Armando Alvares Penteado)

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