A encruzilhada dos EUA

À medida que o Estado Islâmico (EI) continua sua violenta investida no Oriente Médio e mais além, os Estados Unidos estão enredados entre duas respostas radicalmente diferentes. Por um lado, Washington deseja que seus aliados atuem mais na linha de combate com a missão rigorosa de "arruinar e finalmente destruir" todos os recursos militares do EI. Mas o governo, agora, adotou uma postura mais agressiva: pretende assumir a liderança no combate para derrotar o EI rapidamente. Como resultado, o que veremos será um vazio estratégico em que os aliados se perguntarão: os EUA liderarão na retaguarda ou na vanguarda? O que está motivando a mudança?

Ian Bremmer, O Estado de S.Paulo

08 Março 2015 | 02h02

A pressão é cada vez mais intensa para uma mudança de estratégia. Com a economia mais fortalecida, a liderança de Obama no campo da política externa se tornou foco da atenção, submetida a um exame mais atento do Congresso liderado pelos republicanos e dos candidatos à presidência, incluindo a equipe de Hillary Clinton. As relações com os aliados estão estremecidas. Observamos o cáustico confronto com o premiê israelense, Binyamin Netanyahu. Autoridades do Qatar foram a Washington para dizer que a coalizão não vem agindo o suficiente para combater o EI. Resultado: Obama não desfruta do benefício da dúvida e a paciência se esgotou.

Ao mesmo tempo, a ameaça aumenta. O EI vem conseguindo atrair apoio e edificar sua marca e sua posição no exterior. A fragilidade de governos sem nenhuma legitimidade nem recursos para assegurar a estabilidade em seus países constitui terreno fértil para o grupo aumentar suas células ao estilo da Al-Qaeda. O EI rapidamente estabeleceu uma presença relevante na Líbia, no Sinai, no Egito e no Iêmen.

Tudo isso vem impelindo o governo Obama de adotar um tom mais militarista e realizar mudanças apressadas para convencer seus críticos de que está, de fato, fazendo o possível para garantir a derrota do EI. Na Síria, isso ficou bem à mostra quando os Estados Unidos, junto com a Turquia, firmaram um acordo para treinar e armar os rebeldes moderados. Os desafios políticos dos Estados Unidos para trabalhar com o presidente Bashar Assad (e seus aliados Irã, Rússia e Hezbollah) ou para sua derrubada tornou a estratégia militar na Síria muito mais frágil do que no Iraque. São enormes os inconvenientes para equipar os rebeldes sírios; falta coesão entre eles e as armas podem acabar nas mãos do próprio EI, aumentando o potencial para uma luta amplificada contra um presidente Assad cuja posição ainda é muito sólida.

A incoerente estratégia de Washington vem sendo aplicada no Iraque também. Recentemente, Washington acelerou o prazo para "derrotar" o EI em sua base de operações de Mossul. O tempo previsto, que era de um ou dois anos, passou para três meses - antes de o governo ter de voltar atrás. Ficou bastante claro que um plano de três meses não era plausível. O Exército iraquiano estava totalmente disperso seis meses antes e havia pouca inclinação no sentido de uma contrainsurgência urbana mais intensa no coração do território sunita. Bagdá está determinado a impor o cronograma - e com uma boa razão. Suas duas maiores bases de apoio não colaboram entre si.

O Exército do Irã é cada vez mais essencial para a luta contra o EI, encabeçando a campanha para a retomada de Tikrit; os Estados Unidos estão totalmente ausentes dessa campanha - e isso deliberadamente, já que eles não podem correr o risco de um incidente envolvendo fogo amigo ou outros problemas que poderão surgir quando iranianos estiverem envolvidos. Com esse pano de fundo, os americanos não estavam em posição de sugerir um novo calendário - o que criou mais problemas do que soluções.

O governo Obama está numa encruzilhada. Se sua mensagem primordial é a de que os aliados precisam fazer mais na linha de frente do combate pesado, o governo deve sinalizar da maneira mais clara possível que os esforços americanos terão severas limitações. Se os Estados Unidos estarão liderando uma campanha agressiva e acelerada contra o EI, então é preciso mostrar que todas as opções estão na mesa. Isso pode significar uma maior dependência de inimigos americanos que têm causa comum contra o EI - mesmo se esses inimigos forem odiados aliados sunitas importantes.

Como a estratégia dos Estados Unidos não é clara e tem visão estreita, as chances de uma crise mais profunda aumentam. Existe um potencial ameaçador: diante de uma catástrofe maior, talvez uma resposta coerente e competente possa tomar forma, impulsionada pelos Estados Unidos ou imposta aos americanos. / Tradução de Terezinha Martino

* É presidente do Eurasia Group e professor de pesquisa global na Universidade de Nova York

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