Nature Communications
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A encruzilhada dos migrantes

Questões climáticas e terrorismo se misturam em contexto que empurra africanos para Líbia e UE

THOMAS L. FRIEDMAN - THE NEW YORK TIMES, O Estado de S. Paulo

14 Abril 2016 | 05h00

Era uma segunda-feira e isso significa que era dia de partir em Agadez, um centro estratégico no deserto setentrional do Níger, principal trampolim para os migrantes que deixam a África Ocidental. Fugindo da agricultura devastada, da superpopulação e do desemprego, os migrantes de uma dezena de países se reúnem aqui em caravanas todas as segundas-feiras à noite e saem numa corrida desabalada pelo Saara rumo à Líbia, na esperança de conseguir cruzar o Mediterrâneo até a Europa.

Esse encontro de caravanas é uma cena à qual vale a pena assistir. Embora seja noite, ainda faz 40,5º C e há pouco mais que uma lua crescente para iluminar a noite. Então, repentinamente, o deserto se enche de vida.

Usando o serviço de mensagens WhatsApp em seus celulares, os contrabandistas locais, ligados a redes de traficantes que se estendem por toda a África Ocidental, começam a organizar o carregamento furtivo de migrantes que saem de abrigos secretos e dos porões de toda a cidade. Eles foram chegando ao longo de toda a semana, procedentes do Senegal, Sierra Leoa, Nigéria, Costa do Marfim, Libéria, Chade, Guiné, Camarões, Mali e outras cidades do Níger.

Com 15 a 20 homens – nada de mulheres – espremidos na traseira de cada picape Toyota, braços e pernas escapando por todos os lados, os veículos surgem de becos e seguem os carros guias que dispararam na frente para verificar se não há policiais incômodos à espreita de quem não pagou as propinas devidas.

É como assistir a uma sinfonia, mas o espectador não tem ideia de onde esteja o regente. Finalmente, todos eles convergem para um ponto de reunião ao norte da cidade, formando uma gigantesca caravana de 100 a 200 veículos.

Pobre Níger. Agadez, com seus labirintos de edifícios cheios de ornamentos e suas paredes de barro, é um fantástico sítio que a Unesco elegeu patrimônio da Humanidade, mas a cidade foi abandonada pelos turistas depois dos ataques vizinhos do Boko Haram e outros jihadistas. Por isso, como um contrabandista me explica, os carros e ônibus de turistas que atendiam à indústria do turismo foram adaptados para atender à indústria da migração. 

Agora, há os chamados “gatos”, que se dedicam ao recrutamento de pessoas, ligados a contrabandistas, que pedem às mães de meninos que juntem de US$ 400 a US$ 500 para mandá-los procurar emprego na Líbia ou na Europa. Poucos são os que conseguem, mas outros continuam indo.

Estou no posto de controle rodoviário de Agadez assistindo a essa caravana. As picapes que passam quase raspando em mim, levantando poeira, desenham a estrada no deserto ao luar com extraordinárias silhuetas de jovens em pé na traseira de cada veículo. A ideia de que sua terra prometida seja a Líbia devastada pela guerra revela até onde são desesperadoras as condições que estão deixando. Todos os meses, entre 9 mil a 10 mil homens fazem a jornada.

Poucos aceitam falar, nervosamente. Rapazes muito jovens dizem que na realidade se juntaram à corrida ao ouro em Djado, no extremo norte do Níger. Mais típicos são cinco jovens, que, num francês com sotaque senegalês, contam uma história familiar: sem encontrar trabalho na aldeia, foram para a cidade. Sem nenhum trabalho na cidade, rumaram para o norte.

Contrafluxo. A coisa mais maluca é que, no norte, mais perto da fronteira, em Dirkou, a caravana encontra uma onda de migrantes de regresso da Líbia, que, descobriram, é um país sem governo, agressivo e sem qualquer tipo de trabalho decente. Um deles, Mati Almaniq, do Níger, diz que deixou suas três mulheres e 17 filhos na aldeia para procurar trabalho na Líbia ou na Europa e voltou profundamente desiludido. 

A guerra civil na Síria eclodiu em parte em razão da pior seca em quatro anos na história moderna do país – e da superpopulação, estresse climático e ainda a internet, os mesmos fatores que provocaram essa onda migratória africana. É por isso que estou aqui filmando um episódio para a série Years of Living Dangerously sobre as mudanças climáticas em todo o planeta, que será lançado no canal National Geographic no fim do ano. Viajo com Monique Barbut, diretora da Convenção para o Combate à Desertificação da ONU, e Adamou Chaifou, ministro do Meio Ambiente do Níger.

Chaifou explica que a África Ocidental experimentou 20 anos de secas intermitentes. Os períodos secos fazem com que as pessoas desesperadas desmatem os flancos das colinas em busca de lenha para cozinhar ou vender, mas agora são seguidos por chuvas cada vez mais violentas, que carregam as árvores do solo superficial das colinas. 

Enquanto isso, há uma verdadeira explosão populacional – no Níger, as mães têm sete filhos, em média – e os pais continuam tendo um grande número de filhos para se beneficiar do seguro social. Por outro lado, a cada ano, mais terra fértil é comida pela desertificação.

Pelo que as pessoas lembram, ele diz, a estação das chuvas “começava em junho e durava até outubro. Agora, as chuvas mais fortes caem em abril e nós precisamos plantar logo depois das chuvas”. Mas, então, tudo fica seco por um mês ou dois, e depois as chuvas voltam, muito mais intensas, provocando inundações.

“A desertificação age como o gatilho, e a mudança climática atua como amplificador dos desafios políticos que testemunhamos hoje: migrantes impelidos por problemas econômicos, conflitos entre as etnias e extremismo”, afirma Monique Barbut. Ela me mostra três mapas da África com um traço oblongo contornando alguns pontos que se acumulam no meio do continente. O primeiro mostra as regiões mais vulneráveis à desertificação na África em 2008. O segundo, exibe conflitos e tumultos motivados pela comida no período entre 2007 e 2008. O terceiro localiza os ataques terroristas em 2012. As três áreas destacadas cobrem o mesmo território.

Recentemente, a União Europeia concluiu um acordo com a Turquia que aumenta consideravelmente a ajuda a Ancara para que possa tratar dos refugiados e dos migrantes que chegaram até a Turquia, e em troca, esta restringe sua entrada na Europa.

“Se investíssemos uma fração deste montante para ajudar as nações africanas a combater a desertificação, melhorar a saúde e a educação e uma agricultura sustentada em pequena escala, que é o ganha-pão de 80% da população na África, as pessoas daqui poderiam permanecer na terra”, disse Monique, “seria muito melhor para elas e para o planeta”.

Todos querem construir muros hoje em dia, ela observa, mas o muro de que precisamos de fato é um “muro verde” do reflorestamento que mantenha o deserto à distância e se estenda do Mali, no Oeste, até a Etiópia no Leste. Nenhum muro segurará essa maré de migrantes. 

Tudo o que vemos aqui grita que, a não ser que se encontre uma maneira de estabilizar a agricultura em pequena escala na África, de uma maneira ou de outra eles tentarão chegar à Europa. Alguns que não conseguirão com certeza gravitarão para o grupo extremista que os pagar. 

Entrevistei 20 homens de pelo menos dez países africanos no centro de ajuda da Organização Internacional à Migração em Agadez – todos foram à Líbia, tentaram e não puderam chegar até a Europa e retornaram, mas, sem dinheiro, não tiveram como voltar para suas aldeias. “Quantos de vocês e dos seus amigos deixariam a África e iriam para a Europa se pudessem entrar legalmente?”, perguntei.

“Tout le monde”, gritaram praticamente, enquanto todos levantavam as mãos. Não conheço muito bem o francês, mas acho significa “todo mundo”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

*É COLUNISTA

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