A encruzilhada venezuelana

População não tem mídia livre, política competitiva e estado de direito; governo não mostra sinais de que vá se curvar a protestos

RAFAEL , OSÍO CABRICES, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

12 de março de 2014 | 02h13

As violentas manifestações que sacudiram a Venezuela durante semanas ameaçam exterminar o pouco de democracia que ainda resta no país depois de 15 anos de corrosão sistemática pelo Estado. O governo de Nicolás Maduro reagiu com uma força militar maciça, invadiu escritórios e casas sem ordem judicial, prendeu civis em quartéis do Exército e aplaudiu o assassinato de manifestantes por grupos paramilitares.

No entanto, os distúrbios não são presságio de uma Primavera Venezuelana. E, para o governo, eles são um desvio bem-vindo da atenção pública de uma economia quase à beira do colapso e do aumento da criminalidade. E podem até revigorar uma ditadura sem energia.

Os tumultos começaram em 4 de fevereiro, depois que o estupro de uma estudante provocou um protesto num campus universitário. A Guarda Nacional Bolivariana (GNB) reagiu com força desproporcional e as manifestações se multiplicaram. A ira reprimida estava esperando para explodir. No primeiro ano de Maduro no cargo, a Venezuela vive um clima de violência urbana e de escassez de produtos essenciais observado apenas em períodos de guerra. A inflação anual, superior a 56%, é uma das mais altas do mundo.

Até 5 de março, quando o governo de Maduro lembrou o primeiro aniversário da morte de Hugo Chávez, pelo menos 20 pessoas morreram e mais de mil foram detidas. A maior parte foi libertada depois de alguns dias, mas alguns dizem ter sido violentados e torturados. Hoje, os protestos prosseguem em bairros de classe média das principais cidades do país. Os manifestantes, num gesto que mistura desafio anárquico e autodefesa, bloqueiam ruas com barricadas improvisadas e as incendeiam, provocando uma resposta ainda mais violenta da GNB e dos "coletivos", as milícias civis dos chavistas.

Ao provocar congestionamentos e dificultar o acesso às lojas de produtos básicos, as barricadas também reforçam as tensões entre manifestantes e cidadãos comuns. Enquanto escrevia esse artigo, a fumaça tomava conta das ruas próximas do meu apartamento: barricadas queimavam após mais uma batalha entre manifestantes e policiais. Mas tive sorte. Em outros bairros, a GNB e as milícias entram à força em casas para perseguir manifestantes, prendendo não só adolescentes encapuzados, mas também donas de casa furiosas que os insultam.

Neste momento, nenhum partido político, movimento social ou líder está no controle dos protestos. As manifestações causaram uma crise política que afeta menos o governo e mais os seus opositores. Depois de anos lutando para formar uma coalizão, a oposição parece de novo dividida.

Além dos estudantes que iniciaram os protestos, há duas correntes principais dentro da oposição. Uma é formada por um grupo radical liderado por María Corina Machado, congressista que faz parte do núcleo de oposição em Caracas, e Leopoldo López, ex-prefeito do distrito de Chacao, reduto antichavista, preso desde 18 de fevereiro sob acusação de incitar a violência. Eles querem depor o governo. Seus partidários são ativos nas ruas e insultam chavistas e antichavistas moderados pelo Twitter. Outra força tenta manter viva a Mesa da Unidade Democrática, que congrega partidos contrários a Chávez e acredita numa política institucional.

No momento, os radicais parecem ter mais popularidade. Quanto mais gritam, mais as forças de segurança espancam manifestantes e mais barricadas são incendiadas. A situação é mais grave em Táchira, onde a revolta teve início e onde a violência e a escassez de produtos é mais difusa e persiste há mais tempo do que no resto do país. Lá, os protestos se propagaram dos bairros de classe média para as favelas.

No entanto, a revolta na Venezuela não é uma versão latino-americana da Primavera Árabe. Apenas um soldado da Guarda Nacional Bolivariana foi morto até agora - os manifestantes não atacam as forças de segurança. Nenhum grupo com uma plataforma, uma rede e a logística para derrubar o governo apoia os manifestantes. Apesar das alegações dos chavistas de que há um envolvimento dos EUA, as manifestações e os confrontos não são resultado de uma conspiração para derrubar o governo.

Os radicais na oposição que querem uma mudança do regime não podem retirar Maduro do cargo, muito menos substituir o establishment chavista. E o Exército continua alinhado com os herdeiros de Chávez.

O governo não mostra nenhum sinal de que pode se curvar. Nada conseguirá impedir a revolução socialista de Chávez, insistem as autoridades. No melhor dos casos, os protestos podem trazer nova energia para uma ditadura frágil e deficiente. O governo parece apostar que a maioria silenciosa perca a paciência com os manifestantes.

Enquanto isso, a violência continuará, mesmo que essa onda de protestos seja sufocada pelos soldados. Vejo isso na cólera dos motoristas que se deparam com bloqueios no caminho de casa, nos insultos trocados entre vizinhos, no controle cada vez mais deteriorado das autoridades municipais, nas notícias em mídias sociais sobre agressões, incêndios provocados, invasões, vandalismo.

A Venezuela tem sido um país sem espaço para a mídia independente, um estado de direito ou uma política competitiva. Agora, é um país onde milhares de manifestantes, absurdamente, recebem ordens pelo Twitter de um autoproclamado profeta em Miami, Reinaldo dos Santos, que anunciou a queda de Maduro. É também um país onde milhares de chavistas pedem a prisão, o exílio ou o desaparecimento dos que se opõem ao seu governo repressivo. A Venezuela não está vivenciando uma revolução. Está enlouquecendo. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É JORNALISTA E ESCRITOR

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