A epidemia de violência do EI

Mesmo atos isolados como os de sexta-feira mostram como grupo mudou padrões do terror

GREG, MILLER, THE WASHINGTON POST, O Estado de S. Paulo

30 de junho de 2015 | 02h05

Os ataques não parecem ter alguma conexão em termos de tática ou alvo. A decapitação em uma fábrica na França não tinha nenhuma semelhança operacional com o atentado suicida contra a mesquita no Kuwait ou o ataque armado em uma praia repleta de turistas na Tunísia.

Mesmo assim, para autoridades e especialistas em combate ao terrorismo, a explosão de violência na sexta-feira se ajustou a um padrão que vem se tornando mais visível - inspirados pelo Estado Islâmico (EI), quando não diretamente reivindicados por ele, todos de algum modo se inserem na agenda violenta e caótica do grupo.

Ataques quase simultâneos em três continentes devem exacerbar a inquietação quanto ao alcance do EI que se expande cada vez mais. Ainda prevalece a ideia de que o grupo está mais concentrado nas suas ambições regionais no Iraque e na Síria.

Segundo autoridades americanas, a organização parece menos determinada a lançar ataques terroristas muito meticulosos no exterior do que a Al-Qaeda e suas afiliadas. Mas o EI é visto cada vez mais como o centro de um movimento em expansão, cujos elementos abrangem desde seguidores atraídos pela marca de brutalidade às franquias oficiais na Líbia e outros países onde a segurança está deteriorada.

As autoridades americanas disseram na sexta-feira ser muito cedo para determinar se os ataques foram coordenados pelo EI. A organização assumiu a autoria do ataque na Tunísia onde 39 pessoas foram mortas. A Tunísia já havia sido alvo de ataques similares perpetrados pelo EI, que atraiu centenas de recrutas desse país.

O atentado em uma mesquita no Kuwait foi rapidamente reivindicado pelo grupo. Especialistas notaram que os três incidentes ocorreram poucos dias depois de um porta-voz do EI exortar seus seguidores a lançar ataques durante o mês sagrado muçulmano do Ramadã, dizendo que o grupo desejava marcar o aniversário da declaração de um califado no Iraque e na Síria.

Para um agente de inteligência norte-africano, a violência geograficamente dispersa é também um sinal para a Al-Qaeda, rival do EI em influência entre jihadistas. "A mensagem é: podemos atingir qualquer lugar."

Desde seu início, o EI ameaçou atingir alvos ocidentais, mas suas exortações mais recentes foram mais diretas e urgentes. O principal porta-voz do grupo, Abu Mohammed al-Adnani, divulgou uma declaração gravada na semana passada pedindo a seus seguidores que praticassem ataques e buscassem o martírio também fora da Síria durante o mês sagrado islâmico.

O grupo assumiu a responsabilidade em maio por um ataque frustrado em Garland, Texas, num evento onde caricaturistas estavam desenhando o profeta Maomé. Os alvos dos atentados de sexta-feira refletem o amplo leque de objetivos do EI.

A Tunísia foi um ponto particularmente focal para o grupo, em parte porque o país foi o que mais progrediu nas reformas políticas democráticas entre as nações do Oriente Médio e do Norte da África varridas pela chamada Primavera Árabe. Além disso, mais de 3 mil tunisianos foram à Síria combater na guerra civil do país, muitos dos quais se juntaram às fileiras do grupo.

As reformas democráticas da Tunísia são "má notícia para extremistas e, portanto, acho que não é por acaso que a Tunísia seja um foco especial", disse Paul Pillar, ex-vice-diretor do Centro de Contraterrorismo da CIA.

O EI assumiu em março a autoria de um ataque contra um museu em Túnis onde mais de 20 pessoas, muitas das quais turistas, foram mortas.

O atentado suicida no Kuwait parece ter sido parte de uma campanha mais ampla do EI - que é predominantemente sunita - para instigar conflitos étnicos com seguidores da seita rival, o islamismo xiita. O ataque pareceu ter sido cometido por uma filial do EI conhecida como Najd Province, um grupo que tentou estabelecer uma ponte para a Península Arábica, onde está o braço mais potente da Al-Qaeda.

Militantes do EI celebraram os ataques em redes sociais. Uma postagem no Twitter foi endereçada a "cristãos que passam férias na Tunísia": "não podemos aceitar vocês em nossa terra enquanto seus jatos continuam matando nossos irmãos".

Mas enquanto analistas de inteligência americanos tentavam avaliar o papel do EI nos ataques, prosseguia a carnificina do grupo na Síria e no Iraque. Relatórios da cidade síria de Kobani indicavam que o EI já havia matado ao menos mais 146 civis. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO e CELSO PACIORNIK

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