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A epopeia de Sissi e Haftar

Os egípcios têm o general Abdel-Fattah al-Sissi. Militar enérgico, ele ficou conhecido ao aproximar-se da Irmandade Muçulmana, que tomou o poder no Cairo em 2011-2012, depois que os estudantes revoltados da Primavera Árabe derrubaram o ditador Hosni Mubarak em fevereiro de 2012.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

25 Maio 2014 | 02h01

O general Sissi logo cansou dos amigos islamistas da Irmandade. Ele os traiu e começou a pô-los na cadeia ou a condená-los à morte. Hoje e amanhã, o general disputará tranquilamente a presidência da República Egípcia. Será escolhido por maioria esmagadora e incluído no quadro dos soldados autoritários que governaram o Egito desde 1953: Mohammed Neguib, o grande Nasser, Anuar Sadat, Mubarak...

No país vizinho, a Líbia, há alguns dias surgiu um outro militar de alto escalão, o general da reserva Khalifa Haftar, que tenta tomar o poder em Tripoli e gosta de se comparar ao general egípcio Sissi. Na sexta-feira, ele deu início à sua operação de conquista da Líbia atacando o grupo jihadista Ansar al-Charia, em Benghazi.

O general líbio recebeu rapidamente importantes apoios. De início, um apoio aéreo que lhe permitiu desafiar outra formação de jihadistas, a Brigada 17 de Fevereiro. A ofensiva do general Haftar, que recebeu o nome de Dignidade, teria deixado 80 mortos.

Várias unidades militares aderiram às forças do general. Entretanto, é difícil avaliar com precisão as chances do general Haftar de restabelecer a ordem no caos líbio.

Seria possível comparar a epopeia do general líbio àquela que conduzirá o general Sissi à presidência da República egípcia? Não faltam pontos em comum. Efetivos militares e da polícia, decididos a acabar com a peste islamista, compartilham também de certo desprezo pelos princípios da democracia.

O resultado é que ambos não sentem a menor repugnância em mudar de lado de tempos em tempos. É o que fez no Egito o general Sissi. Na Líbia, o general Haftar também não desdenha a traição. Ele apareceu em 1969, aos 26 anos. Na época, ajudou Kadafi a derrubar o rei Idriss e a tomar seu lugar à frente do Estado líbio.

Anos mais tarde, reencontramos o jovem Haftar no Chade, onde o governo do presidente Ronald Reagan formou um batalhão encarregado de derrubar o coronel Kadafi. "Seiscentos soldados líbios", revelou na época o New York Times, estão sendo treinados pelos serviços americanos nas técnicas de sabotagem e guerrilha".

A operação contra Kadafi não pôde ser realizada. Mas quando, muito mais tarde, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), pressionada pelo francês Nicolas Sarkozy, matou de maneira estúpida o coronel Kadafi, no dia 20 de outubro de 2011, o general Haftar decidiu voltar para a Líbia para assumir o comando da luta contra o "terrorismo dos islamistas".

Haftar será um golpista como seu colega Sissi no Egito? Ou, também como o general egípcio, será o "salvador" do seu país? É muito cedo para decidir. O declínio total da Líbia é de tal ordem que fica impossível qualquer prognóstico. Mal podemos reconhecer que a Líbia tem como perspectiva a criação de dois campos: o dos "liberais" de um lado sob a influência do general Haftar, e o dos "jihadistas", do outro lado.

O grupo jihadista Ansar al-Charia, duramente atingido nos últimos dias pela ofensiva do movimento Dignidade, publicou o seguinte comunicado: "Combateremos Haftar, assim como combatemos Kadafi". / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É CORRESPONDENTE EM PARIS

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