A equivocada estratégia retórica de Berlusconi

Mesmo após ter deixado a chefia de governo, ele continua a despejar suas fantasias e toda sua ira na 'ameaça comunista'

É JORNALISTA , FRANK, BRUNI, THE NEW YORK TIMES, É JORNALISTA , FRANK, BRUNI, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

30 de novembro de 2011 | 03h05

A grave situação financeira da Itália obrigou-o a renunciar. Enquanto seu país cambaleia à beira do precipício da moratória, o euro está ameaçado e o mundo todo segue segurando o fôlego. Mas Silvio Berlusconi não entende. No domingo, o primeiro-ministro deposto voltou a público e reabriu a fonte inesgotável das fantasias megalomaníacas, sua boca. E o que saiu dela? Nada de arrependimentos e certamente nada de construtivo.

Berlusconi simplesmente despejou toda a sua ira na ameaça comunista declarando ter sido - e será para sempre - o heroico baluarte contra ela. A ameaça comunista! É o espantalho que ele usou durante toda sua carreira política, com sucesso garantido por mais incrível que possa parecer, e, embora nada tenha a ver com a atual situação da Itália, ele não larga o tema.

Na versão de Berlusconi, a história da Itália nos 17 anos durante os quais ele oscilou dentro e fora do poder não é a história de um país que tenha distribuído suas generosas graças sob a aparente liderança de um oligarca que se considerava a única realidade existente. Mas a de um país que evitou a ameaça vermelha graças a este nobre cavaleiro de armadura cor de tangerina, a curiosa tonalidade que ele consegue por meio de alguma mistura de sol e maquiagem.

Entre os vários líderes europeus que se tornaram vítimas da crise da dívida no continente, Berlusconi talvez será o personagem que por mais tempo dominou a cena, por causa de sua riqueza, de seu império da mídia, dos constantes processos e de um berlusconismo gritante.

Mas, apesar de ser uma figura tão extravagante, é um homem espantosamente pequeno, e não me refiro ao seu tamanho, embora, se ele lesse esta frase, o que mais o preocuparia seria esta interpretação. Em 2003, quando o entrevistei durante um jantar, ele se queixou do fato de ter sido desacreditado na TV italiana como se fosse um gnomo.

"Sou da mesma altura de Aznar", comentou, referindo-se ao então primeiro-ministro da Espanha, José María Aznar. "Sou um italiano médio, não é?", acrescentou, procurando a confirmação de um assessor sentado ao seu lado, confirmação que aliás veio imediatamente. "Certamente", disse o assessor.

Há pouco mais de duas semanas Berlusconi finalmente cedeu as rédeas do governo italiano, e praticamente não abriu a boca até domingo, quando falou a aliados políticos em uma reunião em Verona.

Em tom de desafio, ele previu que depois da conclusão do governo tecnocrático que se acredita guiará a Itália até 2013, o partido político de centro-direita que ele fundou, o Povo da Liberdade, se reerguerá. (Ele já prometeu que não pretende se candidatar novamente.) Prometeu ainda continuar a luta contra uma coalizão de centro-esquerda que não quer realmente que as pessoas sejam livres. Referiu-se a um Estado policialesco, e mencionou seu tema favorito, os comunistas.

Não falou da dívida soberana do país, que agora chega a cerca de 120% do Produto Interno Bruto; da crescente incapacidade de obter empréstimos a juros toleráveis; ou de todos os jovens italianos que não conseguem um trabalho digno.

Esses problemas, a bem da verdade, não devem ser totalmente atribuídos a ele. Mas ele fez muito pouco para preveni-los, ou para modernizar a economia da Itália, enquanto fez muito para cuidar dos próprios negócios e suas necessidades legais e libidinosas.

Amoralidade. E enlameou a língua italiana, assim como a imagem do país, contribuindo para uma espécie de imbecilidade e amoralidade cívica que provocaram um retrocesso da Itália. Um empreendedor grosseiro e duvidoso como Berlusconi, por exemplo, jamais seria o líder que faria todos os italianos pagar sua parcela devida de impostos.

Agora, poderia pelo menos compensar isto em parte se deixasse de lado seu discurso cansado, se parasse de instigar o partidarismo e cuidasse de exortar os italianos a compartilhar as tarefas e os sacrifícios.

Uma mensagem tão nobre a todo o povo destacaria a seriedade da situação da Itália, e provocaria um verdadeiro impacto. Provavelmente é ridículo esperar dele algo desse gênero. Mas não é insensato esperar que os italianos aproveitem a saída dele e comecem a se preparar - de fato - para o futuro.

Aliás, o povo italiano parece cada vez mais curiosamente resignado quanto à era Berlusconi e até mesmo acostumado a ela; o ex-primeiro-ministro foi o alvo mais certeiro de sua ira e das zombarias.

Os italianos recorreram ao refrão segundo o qual não tinham como libertar-se do seu domínio sobre a vida do país, pois ninguém dispunha de um megafone comparável ao dele nem podiam esperar uma alternativa plausível. Cabe a eles agora criar esta alternativa. Já não têm mais nenhuma desculpa para não fazê-lo. E precisam tratar disso quando ele vai a público - disparando contra isto, aquilo e aquilo outro - lembrando-os de que não podem mais permitir esse tipo de farsa que terão de deixar para trás para sempre.

Ele voltou a aparecer na segunda-feira, em um tribunal de Milão, numa ação de suborno que, por causa da demora do Judiciário, poderá prescrever dentro em breve, antes que se chegue a algum veredicto. "É muito difícil ficar acordado", declarou aos repórteres. Na verdade, ele nem precisa tentar. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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