A era da burca acabou, mas mulheres ainda se escondem

CABUL - As mulheres sustentam a metade do céu, como dizia Mao Tsé-tung, mas em Cabul a missão é desempenhada mais entre quatro paredes do que ao ar livre. Os homens são representados de maneira desproporcional nas ruas da cidade, na direção dos carros e no guidão das bicicletas. A maioria usa calças largas e longas túnicas da mesma cor - quase sempre branca ou bege.

Claúdia Trevisan*, O Estado de S.Paulo

09 de setembro de 2014 | 02h01

Turbante e barba são comuns. Uniformes militares, fuzis, arames farpados ao redor de algumas lojas e uma coleção de helicópteros e aviões de combate no aeroporto alertam os desavisados de que esta ainda é uma zona de guerra. Os anos do Taleban em que a imagem feminina era envolta na típica burca azul ficaram para trás, mas as mulheres estão longe de ter uma participação econômica, política e social compatível com sua presença de 49,3% na população.

Em tese, elas não precisam mais sair acompanhadas do marido ou de outro "guardião" masculino. Ainda que caminhem sozinhas, sua presença nas ruas é ofuscada pela dos homens. Algumas decidiram testar os limites do conservadorismo e se aventuraram no comando de carros no trânsito da capital - longe de ser ordenado, ele é bem menos caótico que o de grandes cidades da Índia.

Durante três horas de locomoção na cidade, a reportagem do Estado viu duas mulheres ao volante. Em uma loja que vende chips para celulares, os sete funcionários eram homens. Na chancelaria, o guarda-roupa masculino é ocidentalizado, mas as mulheres continuam a ser quase inexistentes. Ainda que a burca não seja mais onipresente em Cabul, cobrir todo o corpo é obrigatório, até mesmo para as estrangeiras. A regra são roupas largas que cubram punho, canela e pescoço. O quadril deve ser coberto por uma túnica longa, cuja função é não mostrar as curvas, e o cabelo deve ser envolto por um véu. Tudo isso em um calor de quase 30ºC.

* CORRESPONDENTE EM WASHINGTON, ENVIADA AO AFEGANISTÃO, FARÁ NOS PRÓXIMOS DIAS RELATO SOBRE O COTIDIANO DO PAÍS

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