A era da inocência

Agora, políticos democráticos adotam a mentalidade de que o freguês sempre tem razão

É COLUNISTA, DAVID, BROOKS, THE NEW YORK TIMES, É COLUNISTA, DAVID, BROOKS, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

19 Maio 2012 | 03h07

Os pioneiros da democracia na Europa e nos Estados Unidos tinham uma ideia pouco elevada, mas bastante precisa, da natureza humana. Eles sabiam que, diante da oportunidade de fazê-lo, a maioria de nós tentará obter algo em troca de nada. Eles sabiam que as pessoas costumam dar mais valor a prêmios no curto prazo do que à prosperidade no longo prazo. Assim, nos séculos passados, os pioneiros democráticos construíram uma série de contrapesos para garantir que seus países não fossem arruinados pelas próprias fragilidades.

Os fundadores americanos o fizeram por meio da descentralização do poder. Eles construíram freios e contrapesos para frustrar e deter a vontade popular. Eles também dispersaram o poder de modo a encorajar a cidadania ativa, esperando que, conforme as pessoas se tornassem mais envolvidas no governo local, elas desenvolvessem a contenção e o senso de responsabilidade.

Na Europa, em comparação, a autoridade foi centralizada. O poder coube a um pequeno grupo de administradores e estadistas, muitos dos quais tinham frequentado as mesmas academias de elite nas quais deveriam aprender as responsabilidades da arte de comandar. Sob o sistema parlamentar, os eleitores não puderam nem mesmo eleger diretamente seus líderes. Ele votavam em partidos, e as eminências partidárias escolhiam aqueles que de fato formariam o governo, muitas vezes recorrendo a meios secretos.

Por mais que as formas fossem diferentes, as democracias na Europa e nos EUA tomaram como base uma perspectiva similar e cuidadosamente equilibrada da natureza humana: as pessoas são naturalmente egoístas e precisam de vigilância. Mas o autogoverno democrático é possível porque somos inteligentes o bastante para desenvolver estruturas capazes de policiar esse egoísmo.

James Madison disse-o bem: "Assim como existe um grau de depravação na humanidade, que exige certo grau de circunspecção e desconfiança, há também outras qualidades na natureza humana, que justificam certa porção de estima e confiança".

Mas, com o passar dos anos, essa equilibrada sabedoria se perdeu. Os líderes de hoje não creem que seu trabalho seja restringir a vontade popular. Seu trabalho é mimá-la e satisfazê-la. Um gigantesco aparato de pesquisas de opinião foi desenvolvido para ajudar os líderes a detectar e responder aos anseios do povo. Políticos democráticos adotam a mentalidade de executivos do marketing. Dê ao freguês o que ele deseja. O freguês sempre tem razão.

Depois de terem perdido a medida de sua própria fragilidade, muitos eleitores passaram a considerar seus desejos como direitos. Eles se indignam quando seus líderes não respondem às suas necessidades. Como qualquer conjunto normal de seres humanos, eles ordenam aos políticos que lhes concedam benefícios sem lhes cobrar nada por isso.

Promessas. As consequências dessa mudança são agora óbvias. Na Europa e nos EUA, os governos fizeram promessas que não poderão cumprir. Ao mesmo tempo, o maquinário responsável pela tomada de decisões está se desmontando.

As capitais da Europa e dos EUA ainda contam com as estruturas herdadas do passado, mas está ausente o ethos que as fazia funcionar.

O sistema americano descentralizado de freios e contrapesos transmutou-se num sistema fragmentado que dilui a responsabilidade. O Congresso é capaz de aprovar leis que beneficiam pessoas com dinheiro emprestado, mas se vê num impasse quando tenta impor o autocontrole.

A campanha de Barack Obama apresenta seu famoso anúncio, que encarna perfeitamente a visão do governo como benfeitor da população, distribuindo dinheiro e benefícios gratuitamente a todos os segmentos da população. O caso Citizens United confere a interesses ricamente financiados um tremendo poder para preservar ou obter isenções fiscais e acordos regulatórios. Os idosos americanos recebem benefícios de saúde que custam muito mais do que a contribuição oferecida por eles ao sistema.

Na Europa, trabalhadores de todo o continente desejam um estilo de vida fantástico sem ter de arcar com longas jornadas de trabalho. Eles querem um capitalismo dinâmico, mas também garantias individuais. Os Estados europeus de bem-estar vão à falência na tentativa de conciliar tais impossibilidades.

As classes governantes na Europa já tiveram seu poder controlado por meio do contato direto com o caos da política nacional. Mas agora essas classes governantes construíram um aparato tecnocrático, a União Europeia, que opera muito acima do escrutínio popular. Decisões que alteram o destino de famílias e países inteiros são tomadas em algum misterioso nível transnacional. Poucos europeus sabem dizer quem toma as decisões e quem seria o responsável no caso de elas produzirem resultados ruins; não surpreende que se sintam impotentes e desconfiados.

Os sistemas democráticos ocidentais tinham como base um equilíbrio entre insegurança e confiança em relação a si mesmos. Funcionaram porque foram estruturas que protegeram os eleitores de si mesmos.

Depois que as pessoas perderam de vista a dimensão da própria fraqueza, a insegurança se foi, e as estruturas disciplinadoras viram-se sobrecarregadas. Tornou-se loucura conter os próprios desejos, pois sem dúvida os rivais de outra parte não estariam se contendo.

Esse é um dos motivos pelos quais Europa e EUA estão enfrentado crises de endividamento e disfunção política ao mesmo tempo. As pessoas costumavam acreditar que a depravação humana era evidente, que o autogoverno democrático era frágil. Hoje, pensam que a depravação não existe e consideram o autogoverno algo garantido.

Nem o modelo americano nem o europeu voltarão a funcionar enquanto não redescobrirmos e reconhecermos nossa própria fraqueza natural, aprendendo a policiar nossos impulsos em lugar de tratá-los como prioridade. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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