A era de horror no Congo

O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos concluiu seu relatório sobre os crimes que empestearam a região dos Grandes Lagos, na África, durante as sucessivas guerras que foram travadas na República Democrática do Congo (RDC , ex-Zaire).

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

27 de agosto de 2010 | 00h00

O documento cobre o período 1993-2003, com um pico de violência entre julho de 1996 e julho de 1998, marcado pela queda do regime de Mobutu Sese Seko, no Congo, substituído por Laurent Kabila, que contava com o apoio de exércitos estrangeiros, principalmente o da vizinha Ruanda, o Exército Patriótico Ruandês (APR). O espetáculo que este relatório descortina é horrível.

Já sabíamos que a África dos Grandes Lagos era uma sucursal do inferno. Mas hoje penetramos no "sétimo círculo" deste inferno, com lágrimas, gritos, rios de sangue, fogo, facas, valas comuns onde se decompõem corpos de mulheres, crianças e homens.

O horror é ainda maior quando pensamos que estamos distantes destas infâmias e não compreendemos bem seu contexto. É um filme montado por um realizador insano, entre brumas, sois e trevas, onde passam fantasmas que matam, limpam seus facões, se empanturram de comida, bebem, estupram, matam, mutilam, queimam, estupram, cansam, cantam, matam, dormem.

Tudo começou em 1994. Ruanda sangrava até a morte pela ação de uma das duas etnias ruandesas, os hutus, que haviam massacrado os tutsis (800 mil deles foram mortos).

Então, a balança pendeu para o outro lado. Um milhão de hutus fugiram para o então Zaire. À frente dos rebeldes do APR estava Paul Kagame (ainda hoje no poder em Ruanda após ser reeleito este mês com mais de 90% dos votos, sem sinais de fraude eleitoral).

Em 1996, foi criada a Aliança das Forças Democráticas para a Libertação do Congo (AFDL) que deporia o marechal Mobutu no Congo.

Era o início da intervenção na RDC dos Exércitos de Ruanda, Uganda e Burundi, ao lado do APR.

Vítimas. Quantas pessoas foram mortas nestes vaivéns cegos, insanos, nestes genocídios cometidos por fantasmas? Muitas, mas como fazer um cálculo vasculhando as florestas? As pistas dos esquadrões ensandecidos foram apagadas. Segundo a ONG International Rescue Committee (IRC), foram mortos 3,8 milhões de pessoas.

Neste imenso "carnaval do mal", o relatório nos revela inúmeras cenas.

Em Luberizi, em 1996, os soldados do AFDL agarraram 200 refugiados. Os homens foram separados das mulheres e mortos com golpes de baioneta. Todos foram enterrados perto da igreja.

Em Bwegera, 72 refugiados ruandeses foram queimados vivos. Em Mutiko, centenas de refugiados foram mortos a marretadas ou com machados e martelos. Em Tingi-Tingi, os soldados entraram em um centro médico e assassinaram a facadas doentes, crianças, etc.

O relatório do alto comissariado tem 600 páginas. O que será feito desse enorme rosário do mal?

Evidentemente, a ideia é levá-lo ao Tribunal Penal Internacional de Haia, mas este, que realizou um trabalho magnífico sobre a Iugoslávia, foi criado tarde demais para conhecer todas estas ignomínias.

Os governos não se cansam de debater as formas pelas quais a Justiça poderia fazer com que estes crimes impunes recebessem finalmente seu castigo.

Contudo, a própria existência deste relatório é uma luz nestas trevas mefíticas. O documento do alto comissariado tem o mérito de qualificar estas ações: "Crimes contra a humanidade, crimes de guerra, ou genocídios."

Ruanda não se engana a este respeito. Há meses, esforça-se por abafar o relatório, porque sabe que poderá atirar no próprio coração e particularmente no dono de Ruanda, que continua no poder, Paul Kagame.

Esperemos que a comunidade internacional consiga criar "novos mecanismos judiciários", a fim de honrar os cadáveres enterrados na floresta congolesa, anunciando ao mundo inteiro que o tempo da impunidade finalmente acabou.

Esperemos, mas até quando? / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É CORRESPONDENTE EM PARIS

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