A era de ouro

Súbito interesse pelo metal demonstrado por governos e investidores comuns indica desejo de poder e estabilidade

ALAN, FEUER, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

12 de dezembro de 2014 | 02h01

Seria de pensar que agora - 43 anos depois que o presidente Richard Nixon eliminou o padrão ouro - o papel do ouro como instrumento econômico estaria encerrado. Afinal, o poderoso metal que no passado influenciava o sistema monetário global teria sido reduzido, a essa altura, a um mero ativo negociado via internet.

O fato, no entanto, é que, nas últimas semanas, o ouro experimentou uma espécie de renascimento, ressurgindo discretamente no centro de um punhado de iniciativas na Europa, Ásia e Oriente Médio. Em 1.º de dezembro, eleitores da Suíça analisaram - e por fim rejeitaram - um projeto populista para forçar seu Banco Central a comprar ouro numa tentativa discutível de estabilizar sua moeda. Rússia e China ganharam manchetes por ter adquirido enormes reservas de ouro. No fim de novembro, Marine Le Pen, a política nacionalista da França, conclamou seu governo a começar a acumular ouro e a Holanda foi na mesma linha, revelando que naquela mesma semana havia repatriado US$ 5 bilhões de seu próprio ouro de um cofre pertencente ao Banco Central americano.

Até o Estado Islâmico, ao que parece, ficou fascinado por ouro. Declarando no mês passado que queria evitar "o sistema financeiro do tirano", o grupo extremista sunita divulgou uma declaração anunciando sua intenção de produzir uma linha especial de moedas de ouro.

O que está havendo? Como em quase tudo que se refere ao ouro, os especialistas não se entendem. Alguns interpretaram o gradual retorno do metal como um indício de que o apocalipse financeiro, disfarçado de inflação descontrolada, está próximo. Outros interpretaram as movimentações recentes como uma maneira simbólica para bancos centrais e governos fazerem uma demonstração de força em tempos econômicos nervosamente incertos no mundo todo.

"Possuir ouro, para pessoas e para governos, reflete nossas ansiedades sobre o futuro", disse Michael Bordo, professor de economia da Universidade Rutgers especializado em história monetária e política. "Apesar de ser um tanto retrógrado, para muitos investidores, tê-lo na mão é uma garantia de segurança." Numa época em que bancos centrais de todo o globo tentaram promover o crescimento imprimindo dinheiro agressivamente - o que pode, em teoria, desvalorizar moedas soberanas - as medidas tomadas por países para repatriar suas reservas de ouro podem ajudar a criar uma "cultura de estabilidade", disse Bordo. Mas a simples estocagem de ouro não garante a saúde de uma economia e alguns analistas dizem que tais noções de estabilidade são com frequência mais psicológicas do que reais.

A proposta suíça, por exemplo, previa que o banco central retivesse pelo menos 20% de suas reservas nacionais em ouro. Apesar de o referendo ter como finalidade parcial tranquilizar cidadãos suíços preocupados com a solvência de seu dinheiro, alguns historiadores argumentaram que, mesmo que houvesse sido aprovada, a proposta não teria causado nenhum efeito palpável no valor do franco. "Foi, sobretudo, uma medida simbólica", disse Richard Sylla, professor de história dos mercados e instituições financeiras na Universidade de Nova York. "O que não quer dizer que foi maluca ou infundada. O que os suíços estavam efetivamente dizendo ao considerar o plano era que alguns deles iam se sentir muitíssimo melhor se houvesse toneladas de ouro no banco."

Resta a questão de por que o ouro tradicionalmente tem servido como o equivalente econômico de comida caseira. Segundo Bordo, ele é, em primeiro lugar, um ativo de alta liquidez que é facilmente trocado por outras moedas. Além disso, acrescentou, quando era usado como parte do padrão ouro, e com a sua oferta controlada, o metal servia para limitar a impressão de dinheiro por bancos centrais e impor um limite à prodigalidade de governos.

Nem é preciso dizer que numa era em que os balanços de muitos bancos centrais se expandiram de um modo sem precedente, tem havido muitas discussões sobre essas duas últimas tendências, levando uma seita de economistas pessimistas a augurar a catástrofe iminente nos esquemas de repatriação de ouro e nas ondas de compras por Moscou e Pequim.

"Com a compra de ouro, China e Rússia indicaram que compreendem como as coisas estão frágeis e estão se preparando para a morte do dólar", disse James G. Rickards, autor de The Death of Money: The Coming Collapse of the International Monetary System (A morte do dinheiro: o iminente colapso do sistema monetário internacional, em tradução literal). "Ao mesmo tempo, outros países estiveram observando o que eles estão fazendo e dizendo para si, 'se as coisas estão tão ruins assim, é melhor trazermos nosso ouro de volta', sendo a posse nove décimos da lei."

Evidentemente, nem todos os economistas interpretaram o ressurgimento do ouro como o anúncio de uma catástrofe geopolítica. Para Joshua Aizenman, um professor de economia e relações internacionais na Universidade do Sul da Califórnia, chafurdar em ouro é, sobretudo, uma tentativa feita por banqueiros e autoridades para enviar uma mensagem ao mundo - uma que sinalize um apetite por poder ou que transmita o desejo de desafiar um rival.

"Duvido que os chineses e os russos realmente acreditem que o ouro é um investimento assim tão bom em termos de retornos", disse Aizenman. "Mas se eles estão tentando sugerir que estão descontentes com o dólar ou que querem se tornar atores globais, então, o ouro é muito poderoso." "O investimento é um símbolo", explicou. "Ele é feito por ganhos políticos, não financeiros." / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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