A era do concreto

Como as catedrais do passado, o novo arranha-céu de Dubai simboliza a crise e as aspirações de sua época

Blaine Brownell, The New York Times, O Estadao de S.Paulo

16 de março de 2010 | 00h00

Em abril, os primeiros inquilinos poderão finalmente se mudar para o Burj Khalifa de Dubai, agora o edifício mais alto do mundo. Apesar de uma série de contratempos desde sua ostensiva inauguração há dois meses, incluindo o fechamento do mirante de observação, a torre já promoveu uma exuberante proliferação de estatísticas recordistas: ela eleva-se a mais de 800 metros de altura - o dobro do Empire State Building - e possibilita uma visão panorâmica de quase 100 quilômetros. Mas todo essa badalação omite dois outros marcos simbólicos que deveriam enriquecer os livros de história: o Burj Khalifa é principalmente residencial e sua armação estrutural é de concreto reforçado.

Por que esses dois fatos são importantes? A busca da altitude máxima é um grande feito tecnológico, que requer um investimento econômico extraordinário e produz inovações em materiais, além de vir acompanhado de uma alta tolerância ao risco. Quando avaliamos edifícios da história arquitetônica, estruturas altas oferecem percepções notáveis das aspirações das sociedades que as criaram.

Pensem na Idade Média. As altíssimas catedrais de Notre-Dame de Paris e Chartres foram assombrosos marcos de pedra. As igrejas góticas aproveitaram ao máximo a capacidade estrutural dos materiais disponíveis, transformando rocha bruta em delicados esqueletos que encerravam espaços volumosos. Os peregrinos a essas construções sem dúvida ficavam admirados com seu aparente desafio à gravidade e sentiam-se comovidos pelo poder espiritual impressionante transmitido pelos vastos interiores das igrejas perfuradas pela luz dos vitrais.

Em construção de 1192 a 1311, a Lincoln Cathedral, na Inglaterra, foi considerada o primeiro edifício a exceder a altura da Grande Pirâmide de Giza. O mestre de obras da catedral experimentou profusamente o uso de abóbadas com nervuras. As chamadas abóbadas loucas estendiam-se para cima como delicadas folhas de palmeira até uma altura estonteante. Esta foi a construção mais alta do mundo por dois séculos e meio, até seu pináculo central desabar em 1549.

Saltemos agora para o limiar do século 20. Com os desenvolvimentos tecnológicos complementares da estrutura de aço e do elevador, a capacidade de empilhar pavimentos até alturas inconcebíveis em pedra constitui um explosivo retorno sobre o investimento no terreno.

Pela primeira vez, os edifícios mais altos da cidade não eram mais as igrejas. Os arranha-céus que subiam em Chicago ou Nova York eram "catedrais do comércio", repletos de escritórios e laboriosos funcionários.

O Empire State Building foi construído no ritmo alucinante de 410 dias. Quando foi inaugurado em 1931, ele era um casamento sensacional e sem precedente de aço e comércio. Seu cerca de 1 milhão de metros quadrados de espaço de escritório ainda acomoda aproximadamente 21 mil empregados de mil companhias.

E quanto à maravilha construída recentemente no Oriente Médio? É notável o fato de o edifício mais alto do mundo ser dedicado inteiramente a residências opulentas e várias funções de varejo, entretenimento e comércio. O Burj Khalifa é uma espécie de cidade vertical para os ricos. Como ele chegou no momento em que a economia global está ardendo lentamente em meio às cinzas, há a tentação de vê-lo como uma antiguidade excepcional, produto de uma cultura já extinta. Mas o Empire State Building também foi construído durante a Grande Depressão. E grandes inovações em materiais e estruturas têm o poder de durar, a despeito das circunstâncias em que nasceram.

Se uma sociedade adorava a Deus em pedra, e outra venerava a empresa em aço, deve dizer alguma coisa o fato de que agora fomos capazes de atingir tão alto com nosso material de construção mais comum: o concreto.

TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

AUTOR DE "TRANSMATERIAL: A CATALOG OF MATERIALS THAT REDEFINE OUR PHYSICAL ENVIRONMENT" E PROFESSOR ADJUNTO NA FACULDADE DE ARQUITETURA DA UNIVERSIDADE DE MINNESOTA

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