Ronny Hartmann/Pool/AFP
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A era Merkel está perto do fim; leia análise

Apesar de toda a solidez de seu governo, chanceler agora está cedendo a uma situação de genuína incerteza política na Alemanha

Ishaan Tharoor, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2021 | 05h00

Por mais de 16 anos, a chanceler alemã, Angela Merkel, esteve no centro da política europeia. Como a primeira mulher chanceler do país, ela dirigiu a maior economia da Europa - e, por extensão, o resto do continente - por meio de ciclos de crises, desde o choque da recessão global até o risco de colapso da zona do euro e o aumento da migração em 2015. Ela conquistou uma reputação de trabalho sério, liderança estável e talento para compromissos políticos. Quando Donald Trump assumiu o cargo, ela foi brevemente escalada como a grande defensora da ordem liberal ocidental, uma reputação polida por uma foto inesquecível de 2018 de Merkel olhando para Trump do outro lado da mesa como um professor severo prestes a repreender um aluno truculento.

Mas agora estamos no crepúsculo da era Merkel. Os alemães elegerão um novo governo e Merkel não terá parte nele. Seu partido político, os democratas-cristãos de centro-direita, pode, pela primeira vez em uma geração, se ver na oposição sem seu líder talismânico. E com todo o respeito e admiração que Merkel conquistou em casa e no exterior, ela está pronta para sair do palco.

Embora ela se autodenomine campeã da ação climática, a Alemanha continua sendo o maior produtor mundial de carvão marrom. Sua difícil gestão da crise da dívida da zona do euro que começou em 2009 a tornou uma vilã na Grécia, que teve que aceitar medidas de austeridade mordazes ordenadas por financistas do norte. Merkel recebeu aplausos em 2015 por sua decisão de permitir a entrada de um milhão de requerentes de asilo de países como a Síria e o Afeganistão, mesmo quando outros países europeus tentaram impedir o fluxo de imigrantes e refugiados de chegar às suas fronteiras. Mas em meio a uma reação política, ela se deslocou para a direita. Seu pragmatismo não conseguiu evitar uma onda de apoio aos ultranacionalistas e a chocante entrada do partido de extrema direita Alternativa para a Alemanha no parlamento do país.

Merkel “deixa um legado complicado”, escreveu meu colega Loveday Morris em um artigo. “Alguns aplaudem seu estilo político humilde e baseado no consenso. Outros veem a falta de liderança ousada, especialmente em face de uma Rússia mais agressiva e do poderio chinês em ascensão”.

Apesar de toda a solidez de seu governo, Merkel agora está cedendo a uma situação de genuína incerteza política na Alemanha. Nenhum de seus supostos sucessores pode ocupar seu lugar, e os últimos anos de sua gestão acentuaram as questões em aberto sobre o lugar da Alemanha na Europa e sua relação com outras potências, dos Estados Unidos à China. “Seu sucesso em sustentar um sentimento de que a Alemanha poderia ser isolada do caos global fomentou uma atmosfera de deriva na qual declarações vazias de preocupação são consideradas um substituto adequado para a capacidade de tomar ações concretas”, escreveu Alexander Clarkson na revista New Statesman.

Antes da eleição de 26 de setembro na Alemanha, os democratas-cristãos, liderados pelo impopular Armin Laschet, sempre propenso a gafes, caíram dramaticamente nas pesquisas. Laschet está atrás de Annalena Baerbock, dos Verdes, e Olaf Scholz, cujos social-democratas de centro-esquerda passaram anos como um parceiro menor em uma coalizão com a aliança política de Merkel, mas logo poderão estar no comando.

Os telespectadores alemães consideraram Scholz o vencedor dos debates entre os principais candidatos no domingo. Mas os comentaristas lamentaram a falta de profundidade da conversa, que focou em vários escândalos domésticos, mas pouca discussão sobre política externa ou europeia mais ampla. O próximo líder alemão terá que lidar com os problemas que Merkel deixa para trás, incluindo crises sobre o Estado de Direito em outras partes da União Europeia, bem como um sentimento crescente de que a Europa deve fazer mais para proteger seus próprios interesses no cenário mundial.

O legado de Merkel de liderança estável e sólida acompanha um curso de eventos que mostra os limites de sua influência e seus instintos equivocados. “As verdadeiras consequências só se tornarão aparentes nos próximos anos”, observou o semanário alemão Der Spiegel. “Domínio chinês no cenário mundial; os efeitos cada vez mais drásticos das mudanças climáticas; uma Europa que está se fragmentando ao longo de uma linha de fratura entre o liberalismo e o iliberalismo; novos fluxos de refugiados decorrentes de conflitos não resolvidos em todo o mundo. Diante de tais desafios, a era Merkel poderá em breve ser vista como um período de calma do qual logo sentiremos falta.”

“O merkelismo não é mais sustentável e o próximo chanceler da Alemanha terá que encontrar outro caminho a seguir”, disse Piotr Buras, pesquisador sênior de política do Conselho Europeu de Relações Exteriores (ECFR), ao The Washington Post. “Merkel pode ter habilmente mantido o status quo em todo o continente nos últimos 15 anos, mas os desafios que a Europa enfrenta agora - a pandemia, as mudanças climáticas e a competição geopolítica - exigem soluções radicais, não mudanças cosméticas.”

Mesmo assim, Merkel continua sendo uma figura amplamente popular. De acordo com um novo estudo ECFR de coautoria de Buras, pessoas ouvidas em 12 países europeus acreditam que teria havido mais conflito no mundo se Merkel não estivesse no poder. Quando colocados com a questão hipotética de quem eles escolheriam como “presidente” da União Europeia - Merkel ou o presidente francês Emmanuel Macron - a maioria optou pela chanceler alemã.

“Com seu estilo de liderança tecnocrática, ela parece ter conquistado a confiança dos europeus muito mais do que Macron com seus discursos visionários”, observou o relatório.

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