Reprodução/via Reuters
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A escalada de tensão entre Irã e Arábia Saudita ameaça o Oriente Médio

Desde que os Estados Unidos se retiraram do acordo nuclear com o país e impuseram uma série de sanções, crise só aumenta

Redação, O Estado de S.Paulo

16 de setembro de 2019 | 12h21

WASHINGTON - A escalada de tensão entre Irã e Arábia Saudita tem se intensificado desde maio de 2018, quando o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, retirou o país do acordo nuclear com o Irã, firmado durante o governo Barack Obama, que tentava pôr fim a anos de tensões com a teocracia iraniana por causa do programam nuclear do país.

Na ocasião, Trump afirmou que  "no coração do acordo do Irã estava a gigantesca ficção de que um regime assassino desejava apenas um programa nuclear pacífico”. Imediatamente, o govenro americano começou a restabelecer todas as sanções econômicas que haviam sido suspensas em razão do pacto.

A política de "pressão máxima" anunciada por Trump aumentou o poder dos radicais dentro do regime iraniano, e elevou as tensões entre Irã e Arábia Saudita, em especial nos inúmeros conflitos em que os dois países estão envolvidos de forma indireta na região.

Saída de acordo impulsionou crise

O acordo sobre o programa nuclear iraniano prevê a suspensão gradual e condicional das sanções internacionais impostas ao Irã, em troca da garantia de que Teerã não desenvolva armas atômicas.

O acordo foi firmado em Viena, em 14 de julho de 2015, depois de 12 anos de crise e de 21 meses de intensas negociações entre o Irã e os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU (Estados Unidos, China, Rússia, França e Reino Unido), além da Alemanha.Em 8 de maio de 2018, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, decidiu retirar o país do pacto, anunciando a reimposição das sanções econômicas contra Teerã.

Depois que o presidente americano, Donald Trump, retirou os Estados Unidos do acordo assinado em 2015 pelas potências mundiais com o Irã - que previa o alívio de sanções em troca de o país limitar suas atividades nucleares e não desenvolver uma bomba atômica - em novembro de 2018 Washington voltou a impor sanções contra Teerã.

Entre os alvos do governo americano estavam empresas iranianas, e funcionários do alto escalão do governo, além do líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei e até memso a Guarda Revolucionária do Irã, além de companhias estrangeiras como Airbus, Total, Peugeot, Renault e Sanofi também abandonaram suas operações no país para evitar problemas.

Em maio, após uma série de sanções, o governo iraniano anunciou que ultrapassou o estoque permitido de urânio enriquecido no país, o que configura uma quebra no acordo nuclear de 2015. Desde a saída dos Estados Unidos do acordo, em 2018, as relações entre os dois países se fragilizaram.

Irã também colocou em funcionamento centrífugas mais modernas para aumentar o estoque de urânio enriquecido no país e que agora é capaz de aumentá-lo para além de 20%, em uma nova fase de redução de seus compromissos nucleares, o que preocupa a comunidade internacional.

Em junho, crise atingiu seu ápice. 

No meio de junho, os Estados Unidos enviaram um reforço de mil militares para o Oriente Médio, para reforçar a segurança na região após ataques a petroleiros no Estreito de Ormuz, região por onde passa 20% de todo o petróleo comercializado no mundo, tendo como pano de fundo a intensificação das tensões com o Irã

A Marinha britânica se envolveu no caso e enviou para o Golfo o HMS-Astute S-119, um submarino nuclear de ataque e coleta de dados de inteligência. O navio de 7,4 mil toneladas, 97 metros e 98 tripulantes, é bom de briga: além de mísseis de cruzeiro da família Tomahawk, leva torpedos pesados Spearfish de 533 mm e pode ser configurado para lançar equipes de mergulhadores das forças especiais.

O estopim da crise começou com o ataque iraniano a navios petroleiros no Estreito de Ormuz e a derrubada de um drone americano que, segundo o Irã, não sobrevoava águas internacionais, mas sim o território do país.

A resposta dos EUA foi um ciberataque a sistemas de segurança iranianos, que não foi bem sucedido, seguido por uma afirmação de Donald Trump que desistiu de atacar o Irã em questão de minutos, ao saber que civis ficariam feridos.

Irã negou a declaração do presidente dos Estados UnidosDonald Trump, de que um navio de guerra americano destruiu um drone iraniano próximo ao Golfo Pérsico após este ameaçar a embarcação, um incidente marca uma nova escalada nas tensões entre os dois países menos de um mês após Teerã derrubar um drone americano no Estreito de Ormuz

Dias antes, um ciberataque secreto feito pelo governo dos Estados Unidos contra o Irã destruiu um banco de dados usado pelo braço paramilitar do governo iraniano para planejar ataques contra petroleiros, segundo altos funcionários americanos. O ataque teria diminuído, ao menos temporariamente, a capacidade de Teerã de atacar secretamente o tráfego marítimo no Golfo Pérsico.

No fim de junho, o Irã disparou um míssil de médio alcance, segundo relatos de autoridades militares dos Estados Unidos para a mídia americana. Segundo as fontes, o teste não representa uma ameaça para as bases americanas ou outras bases militares ocidentais na região, mas aumenta ainda mais a escalada de tensão entre Irã e Estados Unidos.

O míssil  Shahab-3 não é uma arma nova - está no arsenal iraniano há duas décadas. Baseado em um projeto norte-coreano, chamado No-Dong, ele pode voar cerca de 1.000 quilômetros, mas com aperfeiçoamentos podem ir além, capazes de atingir parte da Europa.

Dias depois, um ataque a oleodutos da Arábia Saudita amplia tensão com Irã no Golfo Pérsico. Em meio à tensão entre Irã e EUA, a Arábia Saudita confirmou que drones carregados com explosivos atingiram poços de petróleo perto de Riad, capital saudita. O ataque, classificado de “terrorista” pelo governo saudita, ocorreu dois dias após petroleiros do país serem sabotados na costa dos Emirados Árabes. 

Israel também se envolveu na crise e realizou uma série de ataques pelo Oriente Médio nas últimas semanas para impedir que o Irã forneça aos seus aliados árabes mísseis guiados com precisão, drones e outras armas sofisticadas que possam desafiar suas defesas.

Os ataques ameaçaram criar uma nova escalada na guerra das sombras entre o Irã e Israel, que poderia levar a um confronto mais amplo.

Analistas dizem que um conflito com o Irã não será uma repetição da guerra dos Estados Unidos contra o Iraque, em 2003. Será muito diferente sob muitos aspectos e, certamente, muito pior. O Irã de hoje é diferente do Iraque de 2003. A maneira como ele travará uma guerra também será outra. O Irã é um país maior. Na época, o Iraque tinha 25 milhões de habitantes. No Irã, são 82 milhões em um território de 1,65 milhão de quilômetros quadrados. O Exército iraquiano tinha 450 mil soldados. Hoje, o Irã tem 523 mil homens e 250 mil reservistas.

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