A Escócia e a força centrífuga da globalização

Uma proteção continental como a União Europeia podeestimular Edimburgo dispensar o guarda-chuva britânico

PHIL, LEVY, FOREING POLICY, O Estado de S.Paulo

18 de setembro de 2014 | 02h03

A possibilidade de grande parte dos escoceses votar hoje pela separação da Grã-Bretanha ameaça subverter algumas das estruturas econômicas e políticas mais básicas da atual ordem mundial. É notável que esse tumulto possa surgir numa região com uma população que é pouco mais da metade da região metropolitana de Chicago. É também notável que isso possa acontecer numa época de globalização supostamente inexorável.

No momento em que os escoceses pensam em sair da jurisdição britânica, convém meditar sobre o uso desse termo e o que uma união tinha a oferecer. Um indivíduo vivendo fora da civilização organizada precisava se preocupar com desafios como comida e autodefesa. Se o assentamento em que vivia fazia parte de uma união mais poderosa, essas necessidades podiam ser preenchidas por outros, permitindo que seus descendentes se dedicassem a engenharia, direito ou medicina. Sob o guarda-chuva reconfortante da civilização, a vida não era tão assustadora como havia sido fora dele.

Isso pode parecer um argumento estranho para descrever a dinâmica da secessão escocesa. Afinal, a ideia não é que eles se aventurarão a sair e correr o risco de perder os confortos de sua participação na Grã-Bretanha?

Talvez, mas o mundo mudou. Se os escoceses olharem em volta, provavelmente não verão Estados pequenos, solitários e esfarrapados em busca de proteção. Verão regiões como Eslováquia e Croácia encontrando prontamente um lugar na União Europeia (UE). Note-se que cada uma fez parte de uma união desfeita - Checoslováquia e Iugoslávia, respectivamente. Como os escoceses já são membros da UE por sua cidadania britânica, isso poderia parecer um passe livre.

A UE está cautelosa sobre servir como força divisora. Em 2012, o presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, disse que qualquer região que se separasse de um Estado-membro da UE não teria participação automática no bloco com sua independência. Membros da UE, como Espanha e Bélgica, estão particularmente ansiosos para suprimir qualquer precedente que possa inspirar regiões separatistas como a Catalunha ou Flandres. Mas, se não houver qualquer tipo de disputa com o restante da Grã-Bretanha (do tipo que mantém a Macedônia fora da UE), é provável que a UE receba seus antigos cidadãos assim que possível.

Na esteira das pesquisas que mostraram a secessão escocesa como uma real possibilidade, tem havido uma torrente de análises econômicas considerando as perspectivas de uma Escócia independente e os desafios que ela enfrentaria. Paul Krugman é um dos muitos que se concentraram na questão da moeda. A Escócia utiliza a libra esterlina e os líderes nacionalistas manifestaram a intenção de mantê-la. Krugman e outros estão certos em apontar os inúmeros problemas desse plano.

Embora uma Escócia independente possa simplesmente declarar que a libra é sua moeda (como El Salvador, de tamanho similar, fez com o dólar), ela não teria nenhuma voz ativa na política monetária e não poderia recorrer ao Banco da Inglaterra para os outros serviços que um banco central propicia, como o de "emprestador em último recurso". "Em suma, tudo que ocorreu na Europa desde 2009 demonstrou que partilhar uma moeda sem partilhar um governo é muito perigoso. No jargão econômico, a integração bancária e a fiscal são elementos essenciais de uma zona de moeda ideal", disse Krugman.

Concordo com ele neste ponto, mas vale notar que isso contradiz alguns princípios fundamentais da União Europeia moderna. A zona do euro tem uma união monetária, mas só deu passos limitados e inadequados para uma união bancária ou fiscal. É fato que países pequenos que entram na zona do euro têm nominalmente voz ativa na política monetária, mas Malta não pode realmente acreditar que tem muita influência. Se os escoceses aderirem à atual doutrina europeia, provavelmente não serão convencidos a se separar em razão da moeda.

Dito isso, há muitas outras razões com que se preocupar. Algumas questões importantes têm a ver com diferenças sutis entre a participação na UE e na Grã-Bretanha. Uma surpreendente tem a ver com as pensões: empresas que operam ao mesmo tempo na Escócia e na Inglaterra seguem um conjunto único de regras de pensão (o da Grã-Bretanha).

Se Escócia e Inglaterra forem países separados dentro da UE, os regulamentos da UE se aplicariam e poderia haver um buraco de bilhões de libras no financiamento das pensões. Mistérios financeiros como este podem ajudar a explicar por que grandes empresas ameaçaram sair da Escócia se o voto pela independência vencer.

Dadas as circunstâncias, seria perigoso e tolo a Escócia sair. Mas isso demonstra uma implicação perversa do esforço por uma maior integração europeia: a criação de um guarda-chuva de alcance continental pode fazer um guarda-chuva nacional parecer redundante e encorajar uma região como a Escócia a sair de baixo do seu abrigo. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É ESPECIALISTA EM ECONOMIA DO

CHICAGO COUNCIL ON GLOBAL AFFAIRS

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