A escola do ditador

Ditadura não é a vocação de qualquer um. Quando os nativos se inquietam, não basta mais vestir o uniforme de corte prussiano e convocar a tropa. Hoje todo ativista que se preze tem um smartphone na mão e um sonho de primavera na cabeça, e ainda Facebook para espalhar a heresia. Tal como as andorinhas de Darwin, o absolutismo evolui com o ambiente ou morre.

Mac Margolis, O Estado de S.Paulo

10 de junho de 2012 | 03h04

Essa é a pauta do jornalista americano William J. Dobson em seu novo livro The Dictator's Learning Curve: Inside the Global Struggle for Democracy ("A curva de aprendizagem do ditador: Dentro da luta global pela democracia", em tradução livre). Ainda sem edição brasileira, o livro é um relato fascinante das entranhas da ditadura contemporânea. China, Egito, Malásia, Rússia e Venezuela: a história só muda de latitude e idioma. Como os déspotas modernos podem se manter no poder quando a demanda por liberdade nunca foi tão forte?

Dobson, editor internacional do portal Slate, correu o mundo para rastrear o déspota moderno, cobrindo 150 mil quilômetros em quatro continentes. Pegou em cheio a onda da Primaveras Árabe, que começou na Tunísia, sacudiu o Oriente Médio e agora tira o sono de autocracias de Moscou a Zimbábue.

A primeira advertência aos homens fortes: Tunísia também é aqui. Por isso, a cúpula do Partido Comunista chinês consulta os comissários de Moscou, que por sua vez debruçam sobre a revolta árabe. É a irmandade tirana, unida para não cair.

Luta pelo poder. O segundo alerta é menos óbvio. Para preservar a autoridade máxima, o neoditador precisa criar pelo menos uma penumbra de legitimidade. Isso requer um intricado jogo de sombras.

O ditador moderno tolera somente a crítica que consegue cooptar. Abusa de eleições e plebiscitos, mas manipula o mapa eleitoral. Deixa o Congresso legislar, desde que os governantes tenham a maioria, e confia disputas à Justiça, convenientemente loteada de amigos. A ideia é imitar a democracia institucional sem se curvar a suas regras.

Saem de cena as tropas de choque oficiais, blindados e terror do Estado. Entram os publicitários, mídia chapa branca, advogados e fiscais. Quem precisa de um carrasco para fazer valer a vontade suprema quando há fiscais de imposto de renda ou juízes simpáticos para infernizar a vida alheia?

Nesse sentido, o México fez escola. Com processos eleitorais manipulados, aparelhamento do governo e sucessão por "dedaço", o Partido Revolucionário Institucional (PRI) monopolizou o poder mexicano durante quase 70 anos, construindo a "ditadura perfeita", nas palavras do escritor Mario Vargas Llosa.

Bolivarianos. Dobson não menciona o México, mas dedica um capítulo inteiro a um filhote espiritual, Hugo Chávez. Pudera. Ao mesmo tempo em que entorta as leis para concentrar cada vez mais poder, cala a crítica e intimida adversários, o homem forte bolivariano colheu a indulgência dos pares, entre eles o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que já pronunciou Chávez o líder mais democrático que a Venezuela já teve.

Chávez e seus pares não são trogloditas recauchutados. O autoritário atual é mais sofisticado e infinitamente mais capacitado que o modelo anterior - 20% do primeiro e segundo escalão do governo chinês tem diplomas de universidades estrangeiras. Nem por isso é mais sutil. Que o diga a egípcia Samira Ibrahim, presa nas manifestações pró-democracia na Praça Tahrir, que acabou nos porões de Hosni Mubarak, onde levou sete horas seguidas de choques.

O novo ditador em seu labirinto é um retrato fascinante. Ainda mais impressionante é a história de quem o desafia. Com talento, coragem e estratégia magistral, a nova geração da oposição democrática sobrevive, organiza e começa a virar o jogo.

É o governador Henrique Capriles, esperança da oposição venezuelana, que driblou o terrorismo dos contadores chavistas ao oferecer tratamento dentário nas escolas públicas de seu Estado.

Que líder nacional cortaria gastos de saúde para colegiais?

São os ambientalistas russos que convenceram os bancos europeus a suspender um empréstimo para Moscou derrubar a reserva florestal Khimki para construir uma estrada. É a oposição sérvia que ridicularizou Slobodan Milosevic ao soltar pelas ruas um bando de perus com camélias brancas na cabeça, a flor preferida da mulher do ditador. "Humor corrói a autoridade", ensina um dos ativistas.

Leva mais de uma blague para fazer uma primavera democrática. A boa notícia é que a autocracia de hoje é bem menos segura do que se pode imaginar. Nesse sentido, a curva de aprendizagem do ditador seguramente será livro de cabeceira em muitos palácios atuais.

É COLUNISTA DO ESTADO, CORRESPONDENTE DA REVISTA NEWSWEEK, EDITA O SITE WWW.BRAZILINFOCUS.COM

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