Saiyna Bashir/The New York Times
Saiyna Bashir/The New York Times

A escola paquistanesa onde os taleban aprendem a ser radicais

A madrassa Darul Uloom Haqqania argumenta que tanto a instituição de ensino religioso quanto os estudantes mudaram

Zia Ur-Rhman, The New York Times, O Estado de S.Paulo

12 de dezembro de 2021 | 05h00

O Taleban tomou o Afeganistão, e a escola de seus integrantes não poderia estar mais orgulhosa. A madrassa Darul Uloom Haqqania, um dos maiores e mais antigos seminários do Paquistão, educou mais líderes taleban do que qualquer outra instituição de ensino no mundo. Agora, seus ex-alunos detêm posições graduadas no Afeganistão.

Os críticos da escola qualificam a madrassa como uma universidade de jihad e a culpam por semear violência por toda região. E se preocupam com a possibilidade de madrassas extremistas e partidos islamistas se sentirem encorajados pela vitória do Taleban, potencialmente alimentando mais radicalismo no Paquistão, apesar do esforço do governo do país de exercer maior controle sobre mais de 30 mil seminários.

Os líderes da escola afirmam que ela mudou, e argumentam que uma chance deve ser dada ao Taleban para o grupo demonstrar que deixou para trás a sanguinolência com que governou o Afeganistão pela primeira vez, há duas décadas. “O mundo testemunhou sua capacidade de administrar o país, por meio de suas vitórias tanto no front diplomático quanto nos campos de batalha”, afirmou o vice-chanceler do seminário, Rashidul Haq Sami.

Um abrandamento do Taleban dificilmente está garantido, dado o aumento na violência este ano, relatos de retaliações assassinas dentro do país, restrições para meninas frequentarem a escola e repressões à liberdade de expressão. Mas Sami argumentou que a recente ascensão do Taleban poderia ter sido ainda mais sanguinária, sinalizando que eles “não repetiriam os erros dos anos 90”. 

Influência política

A madrassa Darul Uloom Haqqania, localizada a cerca de 100 quilômetros da fronteira com o Afeganistão, tem uma influência descomunal no país. Alunos do seminário fundaram o movimento Taleban e governaram o Afeganistão na década de 90. O poderoso Exército paquistanês com frequência usa os líderes da escola para influenciar o Taleban, afirmam especialistas. 

O chanceler da madrassa Samiul Haq – foi assassinado em sua residência em Islamabad, em 2018, – ficou conhecido como o “Pai do Taleban”. 

“Sendo a alma mater de inúmeros líderes taleban, a Haqqania certamente detém seu respeito”, afirmou Azmat Abbas, autor de Madrasa Mirage: A Contemporary History of Islamic Schools in Pakistan (Miragem de madrassas: uma história contemporânea das escolas islâmicas do Paquistão). 

Sirajuddin Haqqani, de 41 anos, que liderou grande parte dos esforços militares do Taleban e tem sobre os ombros uma recompensa de US$ 5 milhões oferecida pelos Estados Unidos por informações que levem à sua captura, assumiu como novo ministro do Interior em exercício do Afeganistão – e foi aluno da madrassa. Assim como Amir Khan Muttaqi, o novo ministro de Relações Exteriores, e Abdul Baqi Haqqani, o ministro de Educação Superior. O ministro da Justiça, o titular do Ministério de Águas e Energia e vários governadores, comandantes militares e juízes do Afeganistão também passaram pela madrassa Haqqania. 

Muitos dos ex-alunos do seminário adotam o nome Haqqani como símbolo de orgulho. O nome da Rede Haqqani – braço armado do Taleban, responsável por sequestros de americanos, complexos atentados suicidas e assassinatos de alvos específicos – homenageia a madrassa. 

Mais de 4 mil estudantes, em sua maioria de famílias pobres, frequentam o vasto seminário, composto por um conjunto de edifícios de concreto de vários andares construídos em um pequeno vilarejo a beira rio, ao leste da cidade paquistanesa de Peshawar. Os cursos variam entre memorização do Alcorão e literatura árabe. 

Durante uma visita recente, um estudioso dava palestra sobre jurisprudência islâmica para um auditório lotado por 1,5 mil estudantes. Eles riam das piadas do professor. Para os alunos, a vitória do Taleban é fonte de grande orgulho.

Relações tensas

Há muito tempo o Paquistão mantém relações tensas com madrassas como a Haqqania. Líderes que anteriormente consideravam os seminários uma maneira de influenciar os eventos no Afeganistão passaram a considerá-las uma fonte de conflito doméstico no Paquistão – que tem um movimento taleban próprio, o Taleban Paquistanês, ou TTP, responsável por uma série de ataques violentos nos anos recentes. Ambos os lados acordaram um cessar-fogo este mês. 

Novos sinais de radicalismo em madrassas emergiram após a queda de Cabul. Estudantes dessas instituições organizaram manifestações pró-Taleban. Nas imediações da Mesquita Vermelha de Islamabad, cenário de um massacre realizado por agentes de segurança 14 anos atrás, bandeiras do Taleban foram erguidas sobre uma madrassa de meninas, vizinha ao local. 

Enquanto isso, a funcionalidade das madrassas declinou, à medida que autoridades paquistanesas têm assumido um papel mais direto em temas relacionados ao Afeganistão, afirmou Muhammad Israr Madani, pesquisador que estuda assuntos religiosos. 

O governo do primeiro-ministro, Imran Khan, deu à madrassa Haqqania US$ 1,6 milhão, em 2018, e US$ 1,7 milhão, em 2017, para “desradicalizar” a instituição. O dinheiro ajudou o seminário a construir um novo prédio, uma quadra de badminton e um laboratório de informática, entre outros projetos. 

Currículo

A Haqqania ampliou seu currículo para incluir língua inglesa, matemática e ciência da computação. A escola exige documentação completa de todos os alunos estrangeiros, incluindo os afegãos, e seus administradores afirmam que a instituição adotou uma política de tolerância zero em relação a atividades anti-Estado. Especialistas paquistaneses em educação afirmam que a iniciativa obteve algum sucesso e que a Haqqania não defende a militância como anteriormente. Ainda assim, afirmam eles, essas madrassas ensinam uma interpretação estreita do Islã. As aulas têm foco mais em argumentar contra outras fés do que estimular o pensamento crítico — e enfatizam práticas como punir ladrões com amputações e sexo fora do casamento com apedrejamentos. /TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO

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