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A escolha da Sérvia

A Sérvia escolheu, domingo, a Europa, com a reeleição do presidente Boris Tadic, interessado numa candidatura sérvia à União Européia, como já ocorreu com países vizinhos: Romênia, e Bulgária e, logo mais, a Croácia.Boris Tadic derrotou Tomislav Nikolic, do partido radical sérvio, líder dos ultranacionalistas, hostil à União Européia e que sonha lançar-se nos braços da Rússia de Putin.Assim, uma boa notícia: a Sérvia aproxima-se da Europa, mas na ponta dos dedos - Tadic venceu com 50,6% dos votos, contra 47,7% dados a Nikolic. E no seu caminho, rapidamente, surgirão muitos obstáculos que poderão frear seu "desejo de Europa".O primeiro desses obstáculos é o Kosovo, província ao sul da Sérvia, região povoada de albaneses muçulmanos (enquanto que a Sérvia é, sobretudo, ortodoxa).Por que o Kosovo? Lembremos que a antiga Iugoslávia explodiu depois de 1992. Foi dilacerada por guerras abomináveis, sórdidas. Todas as antigas províncias iugoslavas decretaram sua independência: Croácia, Eslovênia, Bósnia, Sérvia, Montenegro. Apenas o Kosovo continuou parte do país, mas colocado sob tutela da ONU em 1999.Ora, o Kosovo chegou no seu limite. Seus líderes, por estes dias, vão proclamar a sua independência. A diplomacia ocidental e a União Européia aprovam a decisão. Entretanto, pelo contrário, os ultranacionalistas de Tomislav Nikolic, derrotados por pequena margem de votos por Boris Tadic, estão horrorizados com a idéia de Kosovo separar-se da Sérvia. Seria como amputar uma perna da Sérvia, dizem eles.Mas não é tudo. A recusa a um Kosovo independente não está limitada somente aos ultranacionalistas . São inúmeros os sérvios, mesmo dentro dos partidos "democráticos" , indignados com isso. É o caso, por exemplo, do atual primeiro-ministro, Vojislav Kostunica, do Partido Democrata Sérvio (DSS), que rejeita tanto o Kosovo independente como a Sérvia na União Européia.O presidente reeleito terá coragem de se separar do seu primeiro-ministro, o rígido Kostunica? Ontem ele não teve essa coragem. E hoje, terá?A Rússia conhece bem a Sérvia. Ela é, também, eslava e ortodoxa, portanto, uma aliada natural do ultranacionalista Nikolic - derrotado pelo pró-europeu Tadic, é bom lembrar, por pequena margem. A Rússia dá todo respaldo aos ultranacionalistas quando rejeitam a separação do Kosovo. E apóia mais ainda quando Nikolic declara que a Sérvia deve se voltar mais para os irmãos eslavos da Rússia em vez de olhar para o Ocidente e a União Européia.A diplomacia petrolífera de Putin exulta: há dez dias a empresa russa Gazprom assinou com a Sérvia um enorme acordo, reforçando consideravelmente a presença da Rússia na região dos Bálcãs.Os Bálcãs que continuam fiéis à sua geografia e à sua história: uma fronteira incerta e explosiva em torno da qual o Ocidente (a Europa) e o Oriente (a Rússia) olham-se desafiadoramente, quando não se batem pelos pequenos povos balcânicos intercalados.* Correspondente em Paris

Gilles Lapouge, O Estadao de S.Paulo

04 de fevereiro de 2008 | 00h00

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