Lucas Jackson/Reuters
Lucas Jackson/Reuters

A escolha de Kamala Harris: equilíbrio geográfico cede lugar a questões de gênero e raça

Aliados de Biden e estrategistas esperam que a presença dela na chapa convença mais pessoas a participarem da votação, ampliando as margens em todo o mapa americano

Shane Goldmacher, Adam Nagourney e Jennifer Medina / The New York Times, O Estado de S.Paulo

13 de agosto de 2020 | 08h56

A escolha de Kamala Harris como candidata democrata à vice-presidência — uma senadora daquele que pode ser o estado mais consistentemente democrata dos Estados Unidos — é a mais recente amostra do quanto as questões de gênero e raça deixaram para trás o equilíbrio geográfico quando o assunto é construir uma chapa para disputar a Casa Branca.

Ao escolher a senadora da Califórnia, estado que os democratas conquistaram em todas as eleições presidenciais desde 1992, Joe Biden aceitou os imperativos modernos da construção de coalizões democratas que fizeram da ideia de escolher colegas de chapa capazes de conquistar seus estados de origem uma relíquia do passado.

O mapa eleitoral não deve se alterar muito com Kamala, de origem negra e indígena, e a campanha de Biden não tinha essa expectativa em relação a ela. O ex-vice-presidente lidera as pesquisas na maioria dos campos de batalha mais importantes.

Em vez disso, como foram os eleitores pretos os responsáveis por ressuscitar a candidatura de Biden durante as primárias na Carolina do Sul, ele e sua equipe fizeram da busca do eleitorado preto em novembro uma peça central de sua estratégia para conquistar a Casa Branca. E, desde o início do processo, ele disse que escolheria uma mulher como vice. “Ela traz muita motivação para a chapa", declarou o congressista James Clyburn da Carolina do Sul, importante apoiador de Biden.

Se Kamala não arrasta consigo o trunfo de um novo estado conquistado, aliados de Biden e estrategistas democratas esperam que a presença dela na chapa convença mais pessoas a participarem da votação, ampliando as margens de Biden em todo o mapa e reforçando sua posição em estados onde Hillary Clinton foi derrotada em 2016, parcialmente em decorrência de uma queda nos votos entre as comunidades pretas.

Isso inclui grandes cidades em estados industriais nas quais o presidente Donald Trump se sagrou vitorioso em 2016 - Michigan, Pensilvânia e Wisconsin - onde o eleitorado democrata não compareceu às urnas em peso como ocorreu na eleição do ex-presidente Barack Obama, bem como estados de tendência republicana que abrigam um considerável população preta, como Carolina do Norte e Geórgia, nos quais o Partido Democrata investiu seus recursos em 2020.

“Trata-se de uma escolha totalmente orientada por questões demográficas", disse Theodore R. Johnson, pesquisador sênior do Centro Brennan para a Justiça, que estuda o comportamento do eleitorado preto. Ele previu que Kamala aumentaria o comparecimento entre os americanos pretos.

Na verdade, apesar de muito se falar a respeito do equilíbrio geográfico nas chapas presidenciais, já faz décadas que esse critério não determina a escolha do candidato a vice. A lista de alternativas de Biden este ano é prova disso: Gretchen Whitmer, governadora de Michigan, era uma das poucas que se encaixava nesse antigo perfil.

“Faz tempo que a geografia deixou de ser um fator decisivo", disse Anita Dunn, importante assessora de Biden, a respeito dos colegas de chapa nas eleições presidenciais.

Em 2000, Al Gore era o candidato principal e perdeu em seu estado natal, Tennessee. Em 2004, John Kerry escolheu um vice do sul, John Edwards, que perdeu no seu estado natal, Carolina do Norte. E, em 2012, Paul Ryan não ajudou Mitt Romney a vencer no Wisconsin.

“Com a mídia atual funcionando 24 horas por dia, o equilíbrio geográfico parece coisa do passado político", disse Scott Reed, diretor de campanha de Bob Dole em 1996. Dole escolheu como vice Jack Kemp, de Nova York; eles foram derrotados em Nova York por Bill Clinton.

Patrick Murray, diretor do Instituto de Pesquisa de Opinião da Universidade Monmouth, disse que os padrões históricos se tornaram cada vez mais claros. “Um candidato a vice não conquista estados sozinho", disse ele. “O último vice-presidente que trouxe consigo uma vitória no próprio estado foi Lyndon Johnson em 1960.”

Já as questões de gênero e raça são diferentes, especialmente no ambiente político atual, com os democratas tentando impedir Trump de conseguir um segundo mandato. No fim das primárias, Biden disse que escolheria uma mulher como candidata a vice-presidente, e lobistas trabalhavam com ele agressivamente há meses para que escolhesse uma preta.

Muitos democratas celebraram a escolha histórica na terça feira. Além de nunca ter havido uma mulher preta indicada para a candidatura à vice-presidência ou presidência, o perfil nunca serviu como governadoras estaduais.

“Isso foi como um relâmpago energizando uma base eleitoral que tem observado e aguardado uma razão para ficar animada com essa disputa", disse Matt Morrison, diretor executivo da Working America, grupo político de base trabalhista com 3 milhões de membros. “Minha mãe é preta e está felicíssima, e acredito que ela seja um exemplo da energia visceral da base que levou Barack Obama à Casa Branca.”

A campanha de Biden anunciou que, em se tratando da captação de recursos, o momento da escolha de Kamala foi o melhor possível para a chapa. O site ActBlue, principal centro de processamento de doações do partido, recolheu quase US$ 9 milhões entre 16h e 19h.

Apesar de em sua própria pré-candidatura presidencial de 2020 Kamala não ter atraído sozinha muitas intenções de voto do eleitorado preto, que preferiu Biden em relação a ela e aos outros pré-candidatos pretos na disputa, o senador Cory Booker (Nova Jersey) e Deval Patrick, ex-governador de Massachusetts, o potencial impacto de Kamala foi elogiado. E as pesquisas de opinião indicam que, apesar de toda a pressão das lideranças pretas para que Biden escolhesse um preto como vice, o eleitorado preto tende a dar muito menos atenção a isso na escolha.

Os democratas também esperam que a escolha de Kamala atraia eleitores moderados dos estados mais disputados, em especial nas áreas suburbanas, onde contam com mais apoio das mulheres suburbanas.

Praticamente desde o início da corrida presidencial de 2020, eleitores e especialistas apontam Kamala como destinada a ocupar a vaga de vice da chapa. Foi tão pressionada em relação a isso durante a própria pré-candidatura - às vezes a ponto de se irritar - que, certa vez, brincou dizendo aos repórteres que “Joe Biden seria um ótimo colega de chapa” como vice-presidente dela. O próprio Trump descreveu Kamala como sua “Primeira escolhida” em coletiva de imprensa na terça feira.

Terrie Rizzo, presidente do Partido Democrata da Flórida, disse que o fato de Kamala ser filha de imigrantes seria muito mais importante para a chapa de Biden do que seu estado de origem.  “No plano geral, a geografia importa muito menos do que antes", disse Terrie. “Ela é filha de imigrantes, e a Flórida é um estado de imigrantes.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL 

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