A escolha imprudente de Netanyahu

Decisão de premiê de discursar no Congresso sobre Irã, passando por cima de Obama, é perigosa para a relação bilateral

Thomas L. Friedman, The New York Times, O Estado de S.Paulo

05 de fevereiro de 2015 | 02h04

A decisão do premiê israelense, Binyamin "Bibi" Netanyahu, com ajuda do presidente da Câmara dos Estados Unidos, John Boehner, de discursar ao Congresso invocando as razões pelas quais o governo americano deve adotar uma posição mais dura com relação ao Irã é grosseira, imprudente e muito perigosa para o futuro das relações israelenses e americanas.

Se Netanyahu quer um conselho inteligente, deveria ouvir o ex-embaixador de Israel em Washington, o respeitadíssimo Michael Oren, para quem toda essa manobra está dando a impressão de uma "medida política inescrupulosa que pode prejudicar nossas tentativas de agir contra o Irã". Ele insistiu para Bibi cancelar o discurso.

E se Netanyahu e seu atual embaixador em Washington, Ron Dermer, que elaborou toda a estratégia com Boehner, querem saber o quão ofensivo será seu discurso para o americano médio eles deveriam assistir ao talk-show Fox News Sunday, apresentado por Chris Wallace, que não é um crítico habitual de Israel e corajosamente referiu-se ao convite de Bibi no dia 23: "Para você realmente entender como é imoral toda esta história, o secretário de Estado John Kerry reuniu-se com o embaixador de Israel nos EUA durante duas horas na terça-feira e Ron Dermer, segundo disse o Departamento de Estado, jamais mencionou o fato de Netanyahu concordar em vir a Washington. Estou chocado".

Imagine se o Partido Trabalhista de Israel convidasse o presidente Barack Obama para discursar no Parlamento israelense e expor as razões pelas quais Israel deveria dedicar mais tempo às negociações sobre o Irã e tudo fosse acertado com o embaixador americano em Tel-Aviv às escondidas do primeiro-ministro do Likud. Muitos israelenses receberiam isso como um insulto ao seu líder democraticamente eleito.

Fiz uma pesquisa junto a muitos de amigos não judeus que acompanham a política mundial e são simpáticos a Israel e eles realmente não gostaram do que ocorreu. Não só o nosso presidente foi desrespeitado, como também nosso sistema e alguns limites diplomáticos que todo líder estrangeiro deve respeitar e normalmente o faz.

Em reação à manobra, dez senadores democratas que defendem a imposição de novas sanções contra o Irã entraram em disputa com os republicanos e garantiram para a Casa Branca a prorrogação do prazo que o governo deseja para ver se as negociações ainda podem surtir efeito. Foi o oposto do desejado por Netanyahu e mostra o quão contrariados estão muitos democratas.

Mas não se trata apenas de grosseria. O fato de o líder israelense unir forças com os republicanos contra um presidente democrata é uma insensatez. Israel e seus defensores já vêm sendo atacados em várias universidades nos EUA, onde muitas reitorias são pressionadas a se desvincularem de empresas que realizam negócios com Israel. Fazer do apoio a Israel uma causa republicana não é absolutamente do interesse de Israel ou dos EUA. Israel precisa mais do que o apoio do Congresso ou de um partido.

As preocupações de Israel sobre o Irã têm fundamento. Mas sua agressividade também é criticada em Israel. Se o Congresso quer ter a perspectiva de Israel sobre como lidar com o Irã, então deve convidar também oficiais do alto escalão do Exército e da inteligência israelenses, atuais e aposentados, que têm se manifestado publicamente contra as ameaças de Netanyahu de usar a força contra o Irã. Por que estamos acatando um único ponto de vista israelense?

Se usarmos a força contra o Irã, dificilmente o sucesso estará assegurado e uma reação contrária imprevisível. Por isso, em seu próprio interesse, Israel não deve dar a mínima mostra de estar impelindo os Estados Unidos na direção de uma decisão militar. Israel deve permanecer a quilômetros de distância dessa decisão, deixando claro que é uma questão inteiramente americana.

Se tivermos de atacar o Irã e as consequências tiverem um custo muito alto, os americanos perguntarão: "como entramos nesta confusão?" Uma das primeira coisas que investigarão será o discurso de Netanyahu no Congresso.

Por que Israel se arriscaria a se colocar nessa situação? Permaneça no seu canto, Netanyahu. Não se meta na nossa política. Deixe que os EUA tirem suas próprias conclusões. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

*Thomas L. Friedman é colunista

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