Kevin Lamarque
Kevin Lamarque

A esperança dos muçulmanos

A luta mais importante do momento ocorre entre os modelos de Islã da Tunísia e do EI

Fareed Zakaria, O Estado de S. Paulo

02 de novembro de 2015 | 03h00

“O mais importante combate no mundo neste exato momento é entre o modelo do Estado Islâmico e o modelo tunisiano”, disse Rachid Ghannouchi, em visita a Nova York esta semana. “Não é entre Islã e o Ocidente, mas entre o EI e nós.” 

Ghannouchi é o líder intelectual do Ennahda, partido islamista da Tunísia que, apesar de ter vencido as primeiras eleições livres do país, firmou um acordo com seus inimigos políticos, cedeu o poder e ajudou a tornar a Tunísia o único modelo de sucesso da Primavera Árabe. Ele explicou porque a história do seu pequeno país é crucial para a luta contra o Islã militante em todo o mundo.

“A única maneira de realmente derrotar o Estado Islâmico é oferecer um produto melhor para os milhões de jovens muçulmanos no mundo. Nós construímos a democracia muçulmana”, afirmou. “Os jovens não gostam do Estado Islâmico. Veja como milhões fogem dele. Mas também não aceitam viver sob uma tirania.”

Ele explicou que esse “produto melhor” deve ser um sistema político genuinamente democrático que respeite os direitos humanos, mas também permita que o Islã e seus valores tenham espaço dentro do sistema político. “Estamos criando um modelo alternativo na Tunísia”, disse Ghannouchi, orgulhosamente.

Pressão.

Segundo ele, os milhares de jovens que partem para se juntar ao Estado Islâmico são similares aos agitadores descontentes que se transformaram em guerrilheiros marxistas nos anos 50 e 60. “Algumas pessoas buscam uma ideologia de protesto violento contra a ordem estabelecida. Isso não é algo peculiar. Tem um aspecto religioso hoje”, afirmou.

“Como criamos esses terroristas islâmicos?”, questionou Ghannouchi. “Por todo o Oriente Médio, durante décadas, ditadores oprimiram o Islã. Na Tunísia, qualquer tipo de educação islâmica era proibido. Era proibido as mulheres usarem o véu islâmico. As pessoas eram perseguidas se demonstrassem algum interesse pelo islamismo. São essas políticas que produziram uma reação, essa geração de terroristas islâmicos com a qual estamos convivendo agora.”

A história de sucesso da Tunísia não é uma versão de conto de fadas como às vezes é contada. Os islamistas pressionaram por mais influência da lei islâmica, relutaram em fazer um acordo e deixar o poder porque achavam que o país explodiria se o fizessem. Elementos-chave da velha guarda retornaram com força e o país ficou fragilizado, com a economia sob forte pressão.

No entanto, muitas transições para a democracia foram marcadas por lutas acrimoniosas. A democracia não chegou amistosamente na Coreia do Sul, em Taiwan ou no Chile. Os ditadores resistiram ferozmente. Houve distúrbios, prisões em massa e violência nas ruas. Somente ao fazermos uma retrospectiva é que podemos olhar para trás e falar calmamente de transição democrática pacífica.

A Tunísia tem algumas vantagens distintas que a ajudaram na transição. Numa conversa com o chefe de governo do país, Habib Essid, um tecnocrata, pedi a ele para explicar o sucesso tunisiano. Em primeiro lugar, ele sublinhou que a Tunísia já existia como entidade política há 3 mil anos (desde os tempos da antiga Cartago).

Em segundo lugar, observou que o país é quase que inteiramente sunita, de maneira que não existem as divergências tribais e sectárias como as que criaram fissuras em outras nações como Iraque, Síria e Líbia, que são Estados-nação modernos com menos de 100 anos.

Em terceiro lugar, sob seu primeiro líder após a independência, Habib Bourquiba, a Tunísia construiu instituições administrativas e políticas fortes. Ghannouchi destacou uma outra vantagem importante: Bourguiba garantiu que o Exército fosse uma força restrita e não política. Referindo-se ao retorno dos militares ao governo do Egito e sua rejeição da democracia, ele afirmou que “no Egito o Exército tem um país. Na Tunísia, o país tem um Exército”.

Liderança inteligente. Além de todas estas vantagens históricas e estruturais, a Tunísia se beneficiou de uma liderança política sábia. Ghannouchi explicou porque seu partido transigiu. “A velha guarda pode ter perdido a eleição, mas ainda era muito poderosa, a elite do país. Por isso, tivemos de firmar um acordo com eles.” 

Você não pode buscar a vitória total, o objetivo tem de ser o consenso. “Numa democracia estável, se você vence a eleição, talvez consiga fazer tudo à sua maneira. Mas numa jovem democracia necessitamos de consenso e de conciliação. Perdemos o poder, mas ganhamos a Tunísia”, afirmou.

Ghannouchi é otimista quanto à Primavera Árabe. “As pessoas não retornarão aos velhos hábitos tirânicos. Como a Revolução Francesa, a Primavera Árabe provocou agitações, violência e reação - mas, no final, ela transformará todas essas ditaduras e monarquias no mundo muçulmano.

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