A espiã da CIA que desafiou Bush não pode ser esquecida

Republicanos aproveitam filme para atacar Valerie Plame

Maureen Dowd / THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

14 de outubro de 2010 | 00h00

Enquanto Barack Obama luta para recuperar o encanto, uma das manchetes mais patéticas dos últimos tempos apareceu numa pesquisa de opinião da CNN, na semana passada: "Será que Bush foi um presidente melhor do que Obama? Os americanos estão divididos quanto a quem teria feito um trabalho melhor: Obama ou seu antecessor", dizia a matéria da CNN.

Quer dizer que agora o presidente republicano, cuja inépcia vitimou a economia e o envolvimento do país nas guerras, e o presidente democrata que tenta nos tirar dessa situação estão numa disputa acirrada pela preferência dos americanos? O drama econômico de longo prazo vivido pelos EUA nos levou a esquecer o passado imediato. Os republicanos ainda gozam de popularidade e os candidatos são cada vez mais insanos. Essa insanidade parece dar bons resultados. Sharron Angle, candidata republicana a uma vaga no Senado por Nevada, recolheu US$ 14 milhões no último trimestre na sua cruzada para derrotar o democrata Harry Reid - quantia proporcional às que os candidatos à presidência arrecadam.

Karl Rove montou uma poderosa operação usando doadores anônimos para levar ao ar uma enxurrada de anúncios atacando os democratas. Um abatido Dick Cheney saiu do hospital e voltou a trazer dinheiro para Partido Republicano com a defesa da tortura e da guerra preventiva. Ao lado de Lynne Cheney, Sarah Palin, Rove, Laura Bush e Newt Gingrich, ele atraiu uma multidão para uma conferência realizada na Califórnia. Cada um dos mais de 10 mil participantes desembolsou US$ 495.

Os republicanos se preparam para retomar a campanha de difamação contra Valerie Plame e Joe Wilson, por ocasião da estreia do filme Fair Game, adaptação do livro de memórias do casal, no próximo mês. Robert Luskin, um advogado de Rove que considerou Valerie um "dano colateral" e a classificou de "alvo legítimo" (fair game, em inglês), disse que o casal estaria "com o prazo de validade vencido".

É difícil acreditar que há sete anos explodiu o escândalo da espiã glamourosa e do embaixador exibido. Primeiro, Joe Wilson acusou o imperador menino de estar nu no caso das armas de destruição em massa iraquianas. Depois, acusou a Casa Branca de Bush de promover uma "campanha de difamação" contra ele e de expor sua mulher como espiã da CIA. Ele estava certo, em ambos os casos, e mostrou coragem ao enfrentar um governo que demonstrou inovadora criatividade em se tratando de truculência e manipulação.

Mas, para os republicanos, desacreditar o ex-diplomata e a espiã que o amava foi brincadeira de criança. Wilson era "conhecido por todos como um falastrão", nas palavras do diretor do filme, Doug Liman, e era dado a certos excessos, posando para as lentes da revista Vanity Fair no seu Jaguar ao lado da mulher, timidamente disfarçada por um lenço e um par de óculos escuros.

Enquanto o marido estava no seu furacão promocional, Valerie estava imersa em sua nuvem reticente, seu ar de placidez contradizendo a angústia de ser traída pela agência e a indignação de perceber que Cheney e companhia intimidaram a CIA, afastando o ceticismo em relação aos sistemas de armas de Saddam Hussein e distorcendo as informações de espionagem.

"O nome desse fenômeno é contraproliferação, Jack", diz a Valerie, vivida por Naomi Watts, a seu superior. O filme deixa claro que Valerie não era simplesmente uma "secretária" ou uma "agente de baixo escalão" na CIA, como afirmaram na época os críticos partidários, mas sim uma respeitada espiã infiltrada acompanhando as iniciativas iraquianas.

O filme cria sobreposições para aumentar o suspense e sugere que os contatos de Valerie no Iraque e suas famílias foram assassinados depois que ela foi exposta - uma trama secundária que a revista Variety chamou de "apócrifa e manipuladora". Mas o filme é um vívido lembrete de um dos mais flagrantes abusos de poder da história.

Os chefes de Valerie na CIA são retratos da covardia, rompendo os elos com ela no momento em que a agente começa a receber ameaças de morte e suas fontes no Iraque são postas em risco. O casal Wilson cutucou o vespeiro e não podemos nos esquecer de tudo o que saiu voando dele. /TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

É COLUNISTA E ESCRITORA

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