Emile Ducke/NYT
Emile Ducke/NYT

A ‘estrada dos ossos’ na Rússia: relíquias de sofrimento e desespero

Rodovia de Kolyma, no extremo Oriente do país,levou dezenas de milhares de prisioneiros para os gulags de Stalin

Redação, O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2020 | 07h00

KOLYMA – No verão, os prisioneiros se arrastavam pelos pântanos infestados de insetos, no inverno sobre o gelo que cobria os campos; eles iam levando a estrada, e a estrada levava sempre mais prisioneiros, despejando torrentes de mão de obra escravizada para as minas de ouro e para os campos de prisioneiros de Kolyma, o posto avançado mais frio e mais mortal do gulag de Josef Stalin.

O caminho ficou conhecido como a “estrada dos ossos”, um trecho coberto de cascalho, lama e, na maior parte do ano, de gelo que se estende por pouco mais de 2 mil quilômetros a oeste da cidade portuária russa de Magadan, em frente ao Oceano Pacífico, até Yakutsk, a capital da região de Yakutia, na Sibéria oriental. Serpenteando pelo deserto do extremo Oriente russo, deslizando através de um panorama de uma beleza crua, de tirar o fôlego, pontilhado de tumbas congeladas sem nome e os traços dos campos de trabalhos forçados que estão desaparecendo rapidamente.

Havia pouco tráfego no inverno passado, quando o fotógrafo Emile Ducke e eu percorremos de carro a atual Rodovia R504 de Kolyma, uma versão modernizada da estrada construída pelos prisioneiros. Alguns caminhões pesados e automóveis ainda rodavam na paisagem desolada, esquecidos dos remanescentes da miséria passada enterrados na neve – postes de madeira sustentando arame farpado enferrujado, poços de minas e tijolos quebrados de antigas solitárias.

Os prisioneiros, mais de um milhão, percorreram a estrada: condenados comuns e outros condenados por crimes políticos. Entre eles havia algumas das mentes mais brilhantes da Rússia – vítimas do Grande Terror de Stalin como Sergey Kovalyov, cientista especializado em foguetes que sobreviveu ao martírio e em 1961 pôs o primeiro homem no espaço. Ou Varlam Shalamov, um poeta que depois de 15 anos nos campos de Kolyma concluiu: “Há cães e ursos que se comportam de maneira mais inteligente e moral do que alguns seres humanos”. Estas experiências, contida em seu livro Kolyma Tales, o convenceram de que “um homem se torna uma animal selvagem em três semanas, por causa do trabalho pesado, o frio, a fome e os espancamentos”.

No entanto, para muitos russos, e também para alguns ex-prisioneiros, os horrores do gulag de Stalin estão se dissolvendo na névoa rosada das lembranças de juventude e da imagem de superpotência da Rússia temida antes do colapso da União Soviética.

Antonina Novosad, hoje com 93 anos, presa quando adolescente no oeste da Ucrânia e condenada a dez anos em Kolyma por falsas acusações políticas, trabalhou em uma mina de estanho próxima da “estrada dos ossos”. Ela lembra vividamente de uma companheira presa, morta com um tiro por um guarda porque saíra do caminho para colher pequenas frutas depois do arame farpado. Os prisioneiros a enterraram, contou Novosad, mas o seu corpo foi levado por um urso. “Era assim que trabalhávamos, que vivíamos. Deus me livre. Um campo é um campo.”

Mas ela não despreza Stalin, e lembra também dos prisioneiros em prantos quando, reunidos fora das barracas em março de 1953,  ouviram a notícia da morte do tirano. “Stalin era Deus”, ela disse. “Como diria? Stalin não tinha nenhuma culpa. Era o partido e todas aquelas pessoas. Stalin só assinava”.

Um importante fator que impede a preservação de mais do que apenas pedaços de lembranças é o persistente desaparecimento das evidências físicas do campo de Kolyma, disse Rostislav Kuntsevich, um historiador que cuida de uma mostra no campo para o museu regional de Magadan. “A natureza está fazendo o seu trabalho, e logo nada mais restará”, disse.

Quando a neve derrete ou o trabalho nas minas convulsiona a terra congelada, o passado enterrado ao longo da estrada às vezes ainda sobe à superfície.

No governo de Vladimir Putin, lembranças da perseguição da era stalinista não se apagaram, como mostra um Museu da História do Gulag, inaugurado em Moscou, em 2018. Mas elas frequentemente são abafadas pelas comemorações de outras memórias concorrentes, principalmente o triunfo da Rússia sob a liderança de Stalin sobre Adolf Hitler na Segunda Guerra Mundial. O júbilo daquela vitória, santificada como parâmetro do orgulho nacional, ofusca os horrores do gulag e até mesmo elevou a popularidade de Stalin ao mais alto nível ao longo das décadas.

Na outra extremidade do país, partindo de Magadan, na Karelia, perto da Finlândia, o historiador amador Yuri Dmitriev contestou esta narrativa escavando as tumbas dos prisioneiros assassinados pela polícia secreta de Stalin – e não, como historiadores “patrióticos” afirmam, por soldados finlandeses aliados da Alemanha nazista. Em setembro, ele foi condenado a 13 anos de prisão com base em argumentos frágeis, segundo os quais ele e seus apoiadores criaram as provas do ataque sexual à sua filha adotiva.

Uma pesquisa de opinião publicada em março indicou que 76% dos russos têm uma visão favorável da União Soviética, e Stalin supera todos os outros líderes soviéticos na estima que o povo o tem.

Irritado por outra pesquisa, que concluiu que cerca da metade dos jovens russos nunca ouviu falar da repressão da era de Stalin, um blogueiro de Moscou, Yuri Dud, que tem um grande número de seguidores jovens, percorreu toda a “estrada dos ossos” em 2018 para explorar o que chamou  “A Pátria do Nosso Medo”.

Depois da divulgação online de um vídeo realizado por Dud sobre a viagem, o seu companheiro de passeio, Kuntsevich, o historiador de Kolyma, sofreu uma série de abusos e ameaças físicas de fanáticos stalinistas e de outros enfurecidos pelo fato de o passado ter sido desenterrado.

Kuntsevich contou que inicialmente tentou contestar os que o atacaram, citando estatísticas sobre execuções em massa e de mais de 100 mil mortes no campo de Kolyma pela fome e as doenças. Mas logo desistiu.

“É melhor não discutir com as pessoas a respeito de Stalin. Nada irá mudar sua opinião”, ele falou no seu museu, perto de uma pequena estátua de Shalamov, o escritor cujos relatos sobre a vida nos campos são negados pelos admiradores de Stalin que os consideram ficção.

Alguns funcionários também ficam impressionados com a reverência por um ditador assassino. Andrey Kolyadin, que como funcionário do Kremlin foi mandado para o extremo Oriente para assumir o cargo de vice-governador da região de Kolyma, lembrou que ficou horrorizado quando um morador local ergueu uma estátua a Stalin na sua propriedade. Kolyadin ordenou à polícia que a derrubasse. “Tudo aqui foi construído sobre ossos”, disse Kolyadin.

A cidade costeira de Magadan, o ponto de partida da “estrada dos ossos”, comemora o desespero passado com uma grande estátua de concreto chamada a Máscara da Dor, erguida nos anos 90 durante o governo do presidente Boris Yeltsin. Mas os ativistas de direita afirmam que as autoridades e mesmo muitos habitantes agora querem apenas virar a página do passado hediondo de Kolyma.

“Na realidade, ninguém quer reconhecer os pecados do passado”, observou Sergei Raizman, o representante local do Memorial.

É tão forte o domínio do horror sempre presente mas muitas vezes não manifesto ao longo da “estrada dos ossos”, que muitos dos que moram nos assentamentos edificados ao seu redor, postos avançados que agora estão rapidamente encolhendo e muitas vezes caindo em ruínas, olham para trás com carinho como uma época melhor, ou pelo menos mais segura.

A cerca de 200 quilômetros de Magadan, a estrada chegou à que se tornaria a cidade de Atka no início da década de 1930, poucos anos depois que geólogos, engenheiros e mais tarde prisioneiros começaram a chegar por mar à cidade litorânea de Magadan, então o quartel-general da Base para a Construção do Extremo Norte, um braço da polícia secreta soviética, o construtor da Rodovia de Kolyma.

“Toda a nossa vida está ligada a esta estrada”, disse Natalia Shevchuk, de 66 anos, em sua cozinha em Atka ,enquanto o marido, gravemente doente, um ex-engenheiro de estradas, tossia e gemia na cama no quarto ao lado.

Um dos seus quatro filhos morreu em um acidente na estrada, e ela teme constantemente pelo filho mais novo, que há pouco começou a trabalhar dirigindo caminhões de longa distância na rodovia.

Uma estrada secundária que sai da rodovia principal leva para Oymyakon, o assentamento mais frio do mundo e permanentemente desabitado. Conhecido como o Polo do Frio, em janeiro Oymyakon tem temperaturas médias de -50 graus Celsius. A temperatura mais baixa registrada no lugar  é de -71.

O clima é tão cruel que um problema no motor ou um pneu murcho podem levar a congelar até a morte, um destino que as autoridades tentaram evitar proibindo os motoristas de passar por um veículo perdido sem perguntar se os ocupantes precisam de ajuda.

Com centenas de quilômetros separando os poucos assentamentos desabitados da estrada, em algumas das áreas mais remotas foram instalados contêineres com aquecedores e equipamentos de comunicação para que os motoristas necessitados possam aquecer-se e pedir ajuda.

Em Atka nunca existiu um grande campo de trabalhos forçados, e a comunidade prosperou por muitos anos em consequência do gulag tornando-se um centro de transportes e abastecimento para comboios de caminhões que carregavam trabalhadores escravizados e suprimentos para as minas de ouro, estanho e urânio e para os campos lotados de trabalhadores usados nos reparos da estrada e das pontes lavadas pelas avalanches e pelas tempestades. Quando os campos de prisioneiros foram fechados, depois da morte de Stalin, em 1953, Atka continuou funcionando, e crescendo, e os trabalhos forçados deram lugar aos trabalhadores voluntários atraídos pela promessa de salários muito mais altos do que no resto da União Soviética.

No seu auge, a cidade teve mais de 5 mil habitantes, uma grande escola moderna, uma oficina mecânica, um depósito de combustível, várias lojas e uma grande padaria. Hoje, restam apena seis moradores, todos eles aposentados.

O último morador em idade escolar partiu com a mãe no ano passado. Sua avó ficou e mantém a única loja, um cômodo pequeno repleto de produtos alimentícios no térreo de um bloco de apartamentos de concreto vazio.

As forças naturais que estão limpando os traços físicos do gulag ameaçam eliminar Atka, também. Seus edifícios de apartamentos em grande parte abandonados estão apodrecendo por causa da neve que penetra pelas janelas quebradas, pelos telhados semidestruídos, e pelas portas arrombadas.

Até este ano, o outro empregador de Atka, além de um café na parada dos caminhões e do posto de gasolina na margem da cidade, era uma usina de calefação. O equipamento fechou no fim de setembro depois que o governo do distrito, que durante anos pressionou os moradores para se mudarem para assentamentos mais viáveis, cortou as verbas.

Com isto, os apartamentos ficaram sem calefação. A água corrente foi cortada, deixando os moradores dependendo da entrega de garrafões enchidos em um poço.

O edifício de Shevchuk tem 30 apartamentos, mas somente três estão ocupados. Ela tem um fogão a lenha que instalou no banheiro para manter-se aquecida junto ao marido.

Valentina Zakora, que até recentemente era a prefeita de Atka, disse que tentou durante anos convencer os moradores remanescentes a se mudarem. Sendo relativamente uma recém-chegada – ela veio para Atka há 25 anos com o marido, um mecânico –, não entendia por que as pessoas não queriam aceitar a oferta do governo em dinheiro e habitação gratuita em outro lugar.

“Chorei todos os dias por três anos quando vi este lugar pela primeira vez”, contou. Depois de criar uma família aqui, ela se mudou no começo do ano para uma cidade bem conservada e mais quente, mais perto de Magadan.

Ela gostaria de ver Atka sobreviver. Mas, acrescentou, falando de sua antiga casa, “já é tarde demais para lugares como este”. /NYT, TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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