A estratégia de Obama contra o Estado Islâmico

ANÁLISE: Anne-Marie Slaughter / PROJECT SYNDICATE

O Estado de S.Paulo

27 de setembro de 2014 | 02h02

O presidente americano, Barack Obama, estabeleceu uma estratégia detalhada de como seu governo pretende combater o Estado Islâmico (EI), que controla uma grande área da Síria e do Iraque. Embora eu tenha sido uma dura crítica da política de Obama para a Síria por dois anos e meio, reconheço que sua nova estratégia reflete uma política externa madura e coerente - ainda que não esteja à altura de seus valores. No entanto, essa incompatibilidade poderá derrotar seu plano.

A abordagem de Obama é elogiável por três razões. Primeiro, ela combina força e diplomacia. Segundo, estabelece condições cuidadosas para o tipo e o escopo da ação militar americana. Terceiro, vincula o destino desses esforços à existência e eficácia de uma coalizão ampla no Oriente Médio, deixando claro que, embora os EUA estejam preparados para liderar, não podem e não vão assumir o papel de polícia do mundo.

No jogo de poder do Oriente Médio, Obama está jogando suas cartas da melhor maneira possível. Ele sabe que um esforço militar liderado pelos EUA pode enfraquecer o EI, mas só um esforço político-militar pode derrotá-lo. Ele criou um impulso político para si ao traçar uma linha clara, anunciando que os EUA só ampliariam seus esforços - além de proteger seu povo e missões humanitárias - com o recém-formado governo do Iraque. Se esse governo cumprir suas promessas de inclusão política, os EUA o ajudarão a recuperar seu país; caso contrário, não.

Igualmente importante, mas menos evidente, é o fortalecimento que esta posição proporciona com relação ao Irã. Obama não mencionou o Irã em seu discurso, mas comentaristas especularam sobre se sua estratégia aumenta a influência de Teerã sobre os EUA, com base na teoria de que combatentes apoiados pelos iranianos são fundamentais para o sucesso na luta em solo contra o EI. Mas o governo xiita do Iraque é uma das principais âncoras estratégicas do Irã na região. Antes de os EUA iniciarem os ataques aéreos contra o EI, não havia nenhuma certeza de que o governo iraquiano sobreviveria. O Irã precisa do poder aéreo americano tanto quanto os EUA precisam de forças terrestres apoiadas pelo Irã.

A ênfase americana numa coalizão regional para combater o EI é também diplomacia hábil. O secretário de Estado americano, John Kerry, deixou claro que, por enquanto, o Irã não é bem-vindo na coalizão. O Irã, sem o qual a coalizão se torna basicamente uma frente sunita, pode ter um lugar à mesa - e um papel importante e aberto para resolver a guerra civil síria -, mas só se estiver disposto a chegar a um acordo para conter seu programa nuclear. Jamais houve um melhor momento para isso.

O ponto mais fraco da estratégia de Obama é como chegar às pessoas comuns: a rede de relações humanas entrelaçadas que transmite raiva, ódio e desespero, ou esperança, confiança e lealdade. A doutrina de que os EUA usarão a força para defender seus "interesses centrais", mas mobilizarão outros "para enfrentar desafios mais amplos à ordem internacional" é lógica sólida e boa política num país cansado de guerras. Mas, como diz a mensagem que um sírio me enviou, o que o mundo ouve é que os EUA usarão a força para vingar as mortes de dois jornalistas americanos, mas ficarão à margem enquanto 200 mil sírios são massacrados.

É EX-FUNCIONÁRIA DO DEPARTAMENTO DE ESTADO (2009-2011), CEO DA NEW AMERICA FOUNDATION E

PROFESSORA EMÉRITA DA UNIVERSIDADE PRINCETON

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