A estratégia de Peter Pan de Bibi no caso do Irã

Argumentos apresentados pelo primeiro-ministro israelense ao Congresso dos EUA são fantasiosos e muito menos eficazes que os planos moderados

FAREED, ZAKARIA, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

10 Março 2015 | 02h02

O discurso do primeiro-ministro israelense, Binyamin "Bibi" Netanyahu, no Congresso dos EUA foi eloquente, tocante e inteligente na identificação dos problemas relacionados a um potencial acordo nuclear com o Irã. Mas, ao oferecer a alternativa para tal acordo, ele entrou na Terra do Nunca, pintando um cenário totalmente dissociado da realidade. O Congresso o acompanhou na sua fantasia, aplaudindo entusiasticamente o premiê à medida que ele apresentava suas demandas, uma após outra, inatingíveis.

Netanyahu afirmou que Washington deve rejeitar o atual acordo, exigiu que Teerã desmontasse seu programa nuclear inteiro e se comprometesse a jamais iniciar um novo. No mundo segundo Bibi, chineses, russos e europeus aplaudirão, intensificarão as sanções e aumentarão a pressão - o que levará o Irã a capitular. "Sonhos se tornam verdade se você desejar bastante", disse Peter Pan.

Na verdade, temos precedentes históricos que podem nos informar sobre um caminho mais promissor. Entre 2003 e 2005, sob um outro presidente experiente, Mohamed Khatami, o Irã negociou com três potências da União Europeia um possível acordo que estabelecia restrições e inspeções de seu programa nuclear. O chefe da delegação negociadora na época era Hassan Rohani, hoje presidente do Irã.

Teerã propôs manter apenas algumas de suas centrífugas, manter o grau de enriquecimento bem abaixo dos níveis que permitiriam a construção de armas e converter seu urânio enriquecido em barras combustíveis - que não podem ter uso militar. Peter Jenkins, representante britânico da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) disse à Inter Press Service que todos ficaram "impressionados" com a proposta. No entanto, as conversações fracassaram, pois o governo de George W. Bush, atuando por meio do governo britânico, vetou o acordo. Eles estavam certos de que, se o Ocidente conseguisse "apavorar" os iranianos, "eles cederiam", disse Jenkins.

E qual foi o resultado? O Irã retornou à mesa de negociações e capitulou? Não. O país resistiu às sanções e, livre de qualquer inspeção, expandiu vigorosamente sua infraestrutura nuclear. Aumentou o número de centrífugas de 194 para 19 mil, acumulou quase oito toneladas de gás de urânio enriquecido e intensificou a construção de um reator de água pesada em Arak, onde pode ser produzido plutônio que seria usado em armas.

Graham Allison, da Universidade de Harvard, um dos mais destacados especialistas do país em questões nucleares, destacou que, "ao insistir em demandas excessivas e rejeitar acordos potenciais, o primeiro dos quais teria limitado o número de centrífugas a 164, o que vimos foi o Irã avançar na direção de produzir uma bomba".

Se o acordo que vem sendo negociado agora fracassar, o cenário mais provável será uma repetição do passado. O Irã ampliará seu programa nuclear. Se as outras grandes potências acharem que a oferta do Irã é séria, mas a intransigência israelense e dos EUA torpedeá-la, elas relutarão em aplicar sanções - e todas as sanções começarão perder força com o tempo, de qualquer modo.

A preocupação de Netanyahu é que, com esse acordo, daqui a dez anos, o Irã poderá reiniciar algumas partes do seu programa, Mas, sem o acordo, em dez anos, o Irã provavelmente terá 50 mil centrífugas, um estoque enorme de urânio altamente enriquecido, novas centrais nucleares, milhões de cientistas e técnicos nucleares experientes e um reator de água pesada em pleno funcionamento. Nesse ponto, o que Bibi fará? A teoria segundo a qual o Irã cederá sob uma pressão constante ignora alguns fatos básicos.

O Irã é um país nacionalista orgulhoso, que sobreviveu a 36 anos de sanções ocidentais e suportou uma guerra de oito anos com o Iraque em que perdeu cerca de 500 mil homens. Seu programa nuclear é popular, aprovado até por líderes do Movimento Verde pró-democracia.

Como Allison enfatiza, o Irã já tem recursos para adotar um programa de armas nucleares e já os tinha em 2008, quando dominou a capacidade de produzir centrífugas e enriquecer urânio. Mas o Irã não os utilizou. Há 25 anos, Netanyahu afirma que o Irã está prestes a produzir uma bomba nuclear. Em 1996 - há 19 anos -, ele discursou no Congresso dos EUA e apresentou praticamente o mesmo argumento da semana passada. Nos últimos dez anos, ele tem afirmado repetidamente que o Irã estará de posse de uma bomba em um ano ou dois.

Então, por que as previsões feitas por Bibi nesses 25 anos têm sido erradas? Em parte, isso se deve à sabotagem israelense e ocidental que impediu o progresso do Irã. No entanto, mesmo as afirmações mais exageradas de agências de inteligência não seriam responsáveis por um atraso de mais que alguns anos.

A razão maior é, provavelmente, o fato de o Irã sempre admitir que, se construísse um bomba, enfrentaria imensas consequências internacionais. Em outras palavras, os aiatolás calcularam - corretamente - que os benefícios de uma ruptura não compensariam os custos.

O importante, em se tratando de um acordo com o governo do Irã, é manter os custos de uma ruptura num patamar alto e os benefícios num patamar baixo. Esse é o caminho mais realista para impedir que o Irã se torne um Estado possuidor de armas nucleares - e não os sonhos de Peter Pan. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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