A estratégia do Taleban afegão

Infiltradas, forças do Afeganistão definham na medida em que não sabem em quem confiar entre seus camaradas

Benjamin Jensen, The New York Times, O Estado de S.Paulo

23 de agosto de 2012 | 03h07

CABUL - As guerras nem sempre são ganhas com batalhas decisivas; muitas vezes, elas são conflitos nos quais qualquer ação que quebre a vontade de lutar do adversário é mais um passo para a vitória.

No Afeganistão, o Taleban mira justamente a vontade da comunidade internacional e do governo de Hamid Karzai, infiltrando-se de maneira sistemática nas forças de segurança afegãs com a finalidade de miná-las internamente.

Os ataques perpetrados por soldados e policiais afegãos contra membros das forças da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) - seus parceiros na coalizão - não constituem incidentes isolados. Ao contrário, refletem uma estratégia taleban profundamente arraigada na história do país.

Desde o início do ano, ocorreram 31 ataques, que deixaram 40 mortos. O brigadeiro Günter Katz, um porta-voz da Otan, disse recentemente aos repórteres que esses episódios eram em grande parte fatos isolados causados em geral por problemas pessoais, stress e fadiga decorrentes da batalha.

Entretanto, se a tendência persistir, 2012 registrará o dobro de incidentes em relação a 2011, apesar da redução do número de tropas da coalizão no Afeganistão.

Somente no caso dos Estados Unidos, essas ameaças internas representam atualmente 33% de todas as baixas. Os soldados estão expostos a um risco cada vez maior de serem mortos pelos colegas afegãos que eles deveriam treinar e assessorar.

O aumento dos ataques representa uma mudança catastrófica neste conflito. Os insurgentes estão perdendo terreno no campo de batalha. As bombas colocadas nas margens das estradas e os ataques contra personalidades de destaque, embora sempre mortais, deixaram de produzir um efeito chocante como antigamente. Submetidos a uma pressão cada vez maior, grupos como o Taleban procuram maneiras mais baratas para atacar a coalizão e as forças de segurança afegãs. As ameaças internas permitem aos insurgentes preservar seu poderio de combate empurrando ao mesmo tempo as forças internacionais para a saída.

Esses ataques atuam como uma espécie de cunha que se insere entre os assessores estrangeiros e seus parceiros afegãos. A infiltração quebra a confiança. Os ataques são uma forma de luta desgastante para os assessores estrangeiros, ao mesmo tempo em que prejudicam a qualidade do treinamento.

As forças afegãs vão definhando na medida em que os comandantes não sabem em quem confiar entre suas fileiras. A população tem a impressão de que seu Exército é uma força debilitada. A guerra de vontades torna-se uma guerra pela sobrevivência.

O Taleban não precisa ganhar no campo de batalha. Precisa apenas que os países estrangeiros e os afegãos reduzam o seu apoio ao governo.

A introdução de uma cunha entre os parceiros e a destruição de sua confiança favorece a realização do seu objetivo. O inimigo está se adaptando a essa necessidade. Por outro lado, a infiltração e o subterfúgio são aspectos persistentes da forma de guerrear dos afegãos.

A história afegã está repleta de histórias de intrigas e subterfúgios nos quais o adversário é enfraquecido internamente e os grandes exércitos acabam minguando.

O assassinato de Nader Shah Afshar, o xá da Pérsia de 1688 a 1747, por membros do sua segurança interna levou seu assessor mais próximo, Ahmad Shah Durrani, a fugir com forças leais e ele e a reunir ao seu redor as tribos afegãs em Kandahar, onde constituíram o antecessor do moderno Estado afegão, o Império Durrani.

Durante a Primeira Guerra Anglo-Afegã (1839-1842), os britânicos ajudaram Shah Shuja a retomar o poder do seu irmão, Mohammed Shah. Na Batalha de Maiwand, na Segunda Guerra Anglo-Afegã (1878-1880), frequentemente mencionada na propaganda taleban, os britânicos sofreram graves deserções das tropas afegãs.

A mesma tendência é evidente na história militar contemporânea do Afeganistão. As deserções em massa de unidades do Exército afegão das forças soviéticas foram frequentes durante a jihad anticomunista.

Durante a guerra civil afegã, as facções mudavam continuamente de lado para ganhar vantagem.

O caudilho usbeque, Abdul Rashid Dostum, trocou de lado três vezes. Em 1996, Gulbuddin Hekmatiar deixou de combater a Aliança do Norte, liderada pelos tajiques, para unir-se às forças destes e combater o Taleban. Karzai fez com que vários líderes tribais aderissem ao Taleban quando tomou Kandahar com o apoio da coalizão, em 2001.

Nesse contexto histórico, será fácil perceber que os ataques contra as forças da Otan não podem ser considerados incidentes isolados, e urge reconhecer a gravidade da situação ou a estratégia taleban.

Os insurgentes estão minando as forças nacionais de segurança afegãs em suas próprias fileiras.

Um adversário com grande capacidade de adaptação visa deliberadamente a confiança conquistada a duras penas entre os parceiros afegãos e as forças da coalizão. Portanto, o primeiro passo para debelar essa doença é o diagnóstico do problema. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

* É PROFESSOR ASSISTENTE DA SCHOOL OF INTERNATIONAL SERVICE DA AMERICAN UNIVERSITY, NA QUALIDADE DE OFICIAL GRADUADO DA GUARDA NACIONAL DE MARYLAND, SERVIU NO AFEGANISTÃO

 

 

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