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Gilles Lapouge
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A Europa antes do Brexit

Em poucos dias, no dia 23, a Grã-Bretanha responderá, em referendo, à pergunta que faz o primeiro-ministro David Cameron sobre a permanência na União Europeia (UE). Os dois campos - o favorável ao Brexit (a saída da Grã-Bretanha) e o pela permanência no bloco europeu - têm forças equilibradas. Há apenas uma certeza: no dia 24, a Grã-Bretanha pertencerá definitivamente à UE, a menos que já não pertença. 

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

10 Junho 2016 | 06h47

Nessa incerteza, autoridades da Comunidade Europeia em Bruxelas prendem a respiração. Elas, que são tão falantes, que dão diariamente o tom das diretivas aos 28 membros da UE, estão milagrosamente mudas. Não mexem uma sobrancelha. Se alguém pergunta algo, adotam ar distante, perdido, calam-se e vão embora. A sensação é de estar no quarto de um doente grave no momento em que a junta médica vai dizer a ele se viverá ou morrerá. 

Os países europeus são menos prudentes. Já pensam no amanhã. Alguns, falando no Brexit, perguntam-se se não poderiam ter bons ganhos remexendo nos despojos que a Grã-Bretanha, se decidir pela saída, terá abandonado. Entre esses despojos há uma pepita: a posição de centro financeiro que Londres tem hoje. Será preciso que um país europeu assuma certas atividades financeiras da capital britânica. Ministros e empresários estão na linha de partida para a corrida. 

Sem nem esperar que o paciente morra, os interessados se atropelam. São como uma família que se precipita para a cabeceira de um avô rico e, à espera do último suspiro, começa a disputar a herança. Muitas capitais e cidades sonham com a mina de ouro. A italiana Milão atirou primeiro. Em seguida, foi Paris. Uma conferência foi organizada aqui para convencer bancos e multinacionais de que devem se fixar na capital francesa caso vença o Brexit. 

A sessão foi bela como uma miragem, pois os oradores que cantavam as benesses da sociedade francesa eram os mesmos que, dia após dia, explicam que a França está à beira do abismo, com uma dívida do tamanho do Himalaia, cheia de greves e desempregados, tudo por culpa do governo socialista. Um horror! Claro que será necessário à França se munir de alguns equipamentos suplementares e também oferecer às futuras sociedades um sistema fiscal menos feroz que o atual.

Todos esses discursos entusiasmados parecem estranhos e um pouco surreais, pois foram pronunciados numa França paralisada pelas greves, com trens parados, aeroportos em cólera, ruas infestadas de latas de lixo que os lixeiros se recusam a esvaziar. Acima dessas ruínas, todo mundo briga com todo mundo, a direita com a direita, a esquerda com a esquerda, a direita com a esquerda, a extrema direita com todos os outros e a extrema esquerda com o restante. Quanto ao governo, faz certamente muito barulho, como patos que ainda correm pela cozinha depois de ter o pescoço cortado.

A ouvir essa cascata de eloquência irreal, diríamos que, se Paris de fato tem algumas virtudes, outras cidades também são muito apetitosas. Falamos de Milão. Mas, hoje, a cidade que tem o maior número de votos é Dublin, a capital da Irlanda. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ 

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